Nas Águas do Rio Vermelho – FINAL

Nas Águas do Rio Vermelho – I

 

Oi, gente, um forte abraço. O nosso último texto foi “Um Amor Selado no Céu”. O novo texto vai mexer na sua imaginação e transportar seus pensamentos de um lugar para outro. Veja a nossa nova mensagem.

 

Era um domingo, Dona Marina está preparando o almoço. Lá em um canto do terreiro, está Heleno arriando o seu cavalo, que se chama Lustroso, e embaixo de uma árvore, sentado em um banco, está Elias da Silva; e dois adolescentes brincam de pega-pega no meio do pomar. Essa é a família de Elias, que mora ali no fundo do sertão. Heleno observa o pai, que está enrolando um cigarro de palha com a cabeça baixa, com um semblante triste. O moço se comove ao ver o pai ali naquele banquinho e vai ali ao lado do pai, e senta-se então ao seu lado.

– Oi, pai, está tudo bem com o senhor?

– Sim, meu filho, está tudo bem.

– O senhor parece estar triste, eu posso lhe ajudar?

– Não, Heleno, está tudo certo, não tem nada de errado comigo.

Mas Heleno, apesar de ter apenas dezenove anos, é muito sábio e percebe a triste do pai, e faz a ele uma pergunta:

– Meu pai, o senhor já está com a idade um pouco avançada, já está perto dos sessenta, mas eu percebo que o senhor ainda alimenta um sonho em seu coração, me diz o que é que ainda falta para que sua vida esteja realizada.

– Ah, Heleno! Eu já estou sim, ficando velho, mas dentro de mim, aqui no meu coração, tem um sonho que é difícil de ser realizado, mas a gente nunca deixa perder a esperança, quando a gente não tem mais ambição nessa vida a gente se entristece e a vida perde o sentido. Eu alimento um sonho há muitos anos, meu filho, não sei se um dia eu vou realizar esse meu desejo, mas deixe-me sonhar, Heleno, sonhar não é pecado.

– E qual é esse sonho? Diz pra mim, talvez eu possa ajudar.

– Meu filho, o meu sonho é tão simples, e ao mesmo tempo é tão difícil, ele envolve bastante dinheiro.

– Me conta, meu pai, qual é o seu sonho.

– Heleno, eu nasci e cresci morando bem perto de um rio, e o meu sonho sempre foi o de comprar um pedaço de terra na beira do rio, nós moramos aqui há muitos anos, mas isso aqui não é nosso, uma hora nós vamos ter que ir embora daqui, e então pra onde nós vamos, Heleno? Eu me preocupo com você e com seus dois irmãozinhos. Ah, meu filho, como eu sonho em comprar um sítio na beira do rio!

– Eu acho que só tem uma solução: é o garimpo. Eu, há tempos venho pensando em ir para as minas, cavar a terra, garimpar ouro, assim eu poderei comprar um sítio na beira do rio e realizar o seu sonho.

– Aqui por perto tem um homem que já esteve nas minas e ganhou muito dinheiro com garimpo, amanhã nós vamos descobrir onde ele mora e pedir pra ele nos ensinar como você chega às minas para garimpar.

– Isso, meu pai, amanhã nós vamos lá para que ele nos dê algumas informações sobre o garimpo.

No outro, dia lá estão na casa do Sr. Antunes, o antigo garimpeiro.

– Boa tarde, senhor Antunes.

– Boa tarde, senhores, a que devo a honra da vossa visita?

– Seu Antunes, nós viemos aqui para que o senhor nos de informações sobre o garimpo, o meu filho pretende ir para as minas e nós precisamos de ajuda, será que o senhor poderia nos ajudar?

– Posso sim, eu fiquei muito tempo garimpando e sei com detalhes tudo sobre o garimpo, e posso passar pra você, Heleno, todas as informações necessárias para que você chegue até a mina para garimpar, mas primeiro eu quero deixar bem claro que você deve ter muita opinião, você tem que ser forte para não desistir logo de início, a sua dificuldade já começa na viagem, nós estamos no norte, as estradas aqui do norte são trafegáveis, o garimpo está no sul, o ponto de partida para ir até a mina é a pequena cidade de Santa Rosa e para você chegar lá sua caminhada será difícil, você terá que cavalgar por quatro dias no lombo de um cavalo, você terá que subir e descer várias montanhas e terá que ir bem devagar, senão o seu cavalo não vai agüentar a viagem, em algumas baixadas você vai passar por dentro das águas, são os riachos que descem das encostas e passam por cima da estradinha, a única que te levará até Santa Rosa, e você vai caminhar por meio da mata, terá que ter muito cuidado com cobras, que poderão picar o seu cavalo ou até mesmo você, porque em alguns pontos você terá que puxar o cavalo. No quarto dia de cavalgada, você vai chegar à ponte do rio vermelho, que é um rio muito grande, ali é o fim do sertão, do lado de lá do rio já é o município de Santa Rosa, a estrada é boa, você pode andar a galope se quiser, são mais vinte e quatro quilômetros até a pequena cidade, e quando você apear em Santa Rosa é só perguntar pelo escritório da mineradora e ir até lá e dizer que quer ir para as minas garimpar, e então você será contratado. Daí é só viajar mil e trezentos quilômetros e adentrar na mina.

E quando você entrar no meio daquela multidão de homens que estão ali com um só objetivo na mente, achar ouro ou alguma pedra preciosa ali naquelas montanhas, você vai estar isolado do resto do mundo, e ali, Heleno, é o lugar onde o filho chora e a mãe não vê, ali é olho por olho e dente por dente, é cada um por si e Deus por todos, ninguém te ajuda em nada e se você achar uma pedra preciosa ou uma pedra grande de ouro, não dê alarme, procure o encarregado da mina o mais rápido possível, porque ali tem pessoas boas, mas tem gente maldosa que poderá te matar para te roubar algo de valor, você tem que ser forte para aguentar o trabalho, que é bem pesado, você terá que ser forte para suportar a saudade que você certamente vai sentir das pessoas que você deixou pra trás. Mas pode valer a pena todo o sofrimento que você passar ali, porque ali você entra pobre e pode sair rico, porém ali tudo pode te acontecer, você pode entrar vivo e sair morto, entrar pobre e sair do jeito que você entrou, enfim, tudo vai depender do seu esforço e da sorte também. Eu não vou te iludir, Heleno, assim é a vida no garimpo. Responde pra mim, você vai se arriscar?

– Vou, seu Antunes. Para realizar o sonho do meu pai e também para garantir um futuro para mim e meus irmãos, farei qualquer sacrifício, eu penso também na minha mãe, o garimpo é minha única esperança.

Nesse instante seu Elias toma a palavra:

– Seu Antunes, esse meu filho vale ouro, é um rapaz muito amoroso, trabalhador, eu acho que ele vence essa parada.

– Sendo assim só me resta lhe desejar boa sorte, que Deus lhe acompanhe nessa jornada e o abençoe todos os dias.

Antes de se despedir, Heleno diz essas palavras:

– Seu Antunes, muito obrigado pelas informações, agora eu sou uma pessoa bem preparada para enfrentar o garimpo, que Deus abençoe o senhor e a sua família.

Dizendo essas palavras eles se despedem.

Quatro dias depois, são nove horas da manhã, o cavalo está arriado com uma mala bem amarrada na garupa e algumas sacolas com alimentos não perecíveis e uma coberta enrolada e amarrada no arreio, e também uma moringa com água. Essa é a bagagem que Heleno vai levar na viagem de quatro dias a cavalo e que não tem data marcada para voltar. Abraços e muito choro na hora da despedida, e o cavalo sai lentamente sob os olhos dos pais e dos irmãos que devagar vão sumindo na estrada que corta o sertão, em direção ao sul, para seguir na estradinha que levará até a ponte do rio vermelho e chegar até Santa Rosa e rumar em direção à mina.

Quatro dias depois, faltando uns cinquenta metros para chegar na ponte, o moço fica encantado com a beleza do rio, ele ainda não tinha visto um rio daquele tamanho. Ele para o cavalo e fica olhando aquela imensidão de água e falando consigo mesmo essas palavras:

– Que coisa mais linda do mundo que é esse rio, eu queria que o meu pai estivesse aqui pra ele olhar essa maravilha que a natureza nos oferece!

O moço está emocionado com seu cavalo parado, e de repente um animal sai do mato e passa na frente do cavalo, o cavalo levanta a parte dianteira e fica só com as patas traseiras no chão, jogando, assim, o moço em cima das pedras e em seguida o animal assustado pisoteia o moço e relincha bem alto por algumas vezes. Heleno com a queda brusca bate a cabeça em uma pedra e desmaia. Às margens do rio está uma moça, do outro lado da ponte, como de costume lavando roupas, ela escuta o relinchar do cavalo e sai correndo, pois aquilo não era normal por ali, ela sai na estrada e lá na frente vê o cavalo assustado e Heleno jogado no chão, então ela atravessa a ponte e se abaixa do lado do moço e se depara com aquela cena horrível, o moço está desmaiado com o rosto coberto de sangue, ela exclama consigo mesma:

– Meu Deus, o que será que aconteceu?!

Ela amarra o cavalo debaixo de uma árvore, em seguida ela volta correndo lá onde estava lavando sua roupa, pega um pano e um balde com água e volta ao local do acidente, molha o pano e vai lentamente limpando o sangue que está cobrindo o rosto de Heleno. Depois de alguns minutos, o moço vai abrindo os olhos e volta ao normal, e vê aquele ser angelical limpando sua face, a linda menina dos cabelos negros e longos, que com aquele rosto trigueira, faz a ele uma pergunta:

– Me diga, moço, o que aconteceu com você?

– Eu estava parado com meu cavalo olhando a beleza desse rio, e foi então que um animal saiu do mato e assustou o meu animal, que me jogou em cima dessas pedras, e em seguida pisou em cima de mim.

– Você está bem machucado, sua perna esquerda parece quebrada.

– Minhas costas também doem muito.

– Eu vou virar você para ver a sua costa.

Ela vira o moço bem devagar.

– Realmente deve estar muito dolorido, sua costa também está muito machucada, agora eu vou te ajudar a levantar para te colocar ali na sombra, você se esforça só com a perna direita, me abrace nos ombros que eu te pego na sua cintura e eu te levo até ali naquela árvore.

A moça coloca Heleno na sombra e ele pergunta:

– E agora, o que é que você vai fazer comigo?

– Agora eu vou embora, e quando você sarar é só você pegar o cavalo e ir embora também.

– Você enlouqueceu, se eu ficar aqui nesse fim de mundo eu vou morrer, eu preciso da sua ajuda, por favor, não me abandone aqui.

A moça olha aquele olhar de piedade naquele rosto, que parecia ser tão bondoso e dá um sorriso, e diz pra ele:

– Eu estou brincando, seu bobo, é claro que eu não vou deixar um moço tão bonito morrer lentamente aqui nessa estradinha abandonada, sozinho aqui você morre com certeza, eu vou te salvar, vou te levar lá em minha casa e vou cuidar de você, ta bom?

– Moça, qual seu nome?

– Ah, você quer saber meu nome? Acho que deveria me dizer o seu primeiro.

– Eu me chamo Heleno, como posso chamá-la?

– Me chamo Flávia.

– Flávia, você foi um anjo que caiu do céu bem aqui na minha frente para me salvar.

– Mas antes de te levar pra minha casa, eu quero saber tudo sobre você, de onde você vem, pra onde você vai, eu quero saber a sua origem, me conte tudo e sem mentiras, se eu desconfiar que você está mentindo pra mim eu te deixo morrer aqui.

Os dois sorriem e ele responde:

– Eu juro pra você que eu só vou falar a verdade. Eu venho lá do fundo do sertão, estou indo com destino certo, eu vou para a mina de ouro, pois eu quero ser garimpeiro. E o motivo da minha ida para o garimpo é um só: sair da pobreza e realizar um grande sonho do meu velho pai… ele sonha há muitos anos em comprar um sítio na beira do rio, ele gosta muito de pescar, desse jeito ele foi criado, cresceu na beira do rio. Mas um sítio na beira do rio é muito caro, e para realizar o sonho do meu pai é só eu indo para o garimpo tentar a sorte.

– Agora me fale sobre você.

– O meu pai já não tem esse problema, esse sítio na beira do rio é dele, são quarenta e seis alqueires de terra e o rio passa por todo o nosso sítio, eu moro a duzentos metros daqui e agora você fica bem quietinho aí que eu vou lá em casa trazer o meu pai e as minhas irmãs para me ajudarem a te levar pra lá.

Flávia chega em casa e conta toda a história ao seu pai, e então o senhor Isaías Monteiro e as duas irmãs de Flávia, Katia e Carla, se comovem com a história de Heleno, e uma hora depois lá está o moço em um dos quartos sendo medicado.

 

Parte II

 

No dia seguinte ao ouvir toda a história de Heleno sendo contada por ele mesmo, Isaías percebe que está diante de um moço dotado de muitas qualidades, sai do quarto onde repousa o seu hospede e vai até a cozinha, reúne a família e diz essas palavras:

– Eu estou comovido com a história que esse moço me contou, sem dúvidas eu posso dizer que ele é um rapaz de qualidades, com apenas dezenove anos e já coloca em seus ombros uma missão tão difícil, nós precisamos ajudá-lo. Flávia foi você que praticamente salvou a sua vida, eu vou deixá-lo sob os seus cuidados até que ele se recupere.

E desse dia em diante Flávia dedicava todo seu tempo ao lado de Heleno. Uma semana depois, são oito horas da manhã, Heleno está acamado, Flávia entra no quarto com uma bandeja na mão.

– Olá, vim trazer seu café e ver como você está, coma primeiro e depois eu vejo suas machucaduras.

Ela se senta na cama e espera até que ele termine de tomar o café, depois pega alguns remédios e diz essas palavras:

– Agora eu vou olhar sua costa.

Heleno se vira na cama, a moça ergue sua camisa, e mesmo contra sua vontade seus olhas percorrem rapidamente os ombros fortes do rapaz. Mas ela rapidamente se recompõe e volta sua atenção ao que realmente lhe cabe.

– Nossa, que bom, já está melhorando. Aquela vermelhidão já está sumindo, mas ainda está inflamado. Vou passar um bálsamo e fazer um curativo. E sua cabeça, deixe-me ver.

Flávia desenfaixa a cabeça de Heleno e exclama:

– Nossa, o corte foi bem grande, por isso seu rosto estava banhando em sangue.

– Eu bati com a cabeça muito forte na pedra.

Os dias se passavam e a moça carinhosamente cuidava do seu paciente e pouco a pouco os machucados iam cicatrizando. Dois meses depois, Flávia entra no quarto para medicar seu paciente.

– Nossa Heleno, como você está se recuperando rápido.

– Também, com uma enfermeira tão boa como essa que está cuidando de mim, é claro que logo estarei curado. Primeiro, essa enfermeira salva a minha vida e agora ela está restaurando minha saúde. Flávia, vou te contar, uma história tão bonita e verídica.

– Era uma vez em pleno sertão, os pássaros cantavam como de costume, o sol estava alto e esquentava muito, pois eram duas horas da tarde, e em uma estradinha abandonada e deserta havia um moço caído no chão em cima das pedras, ele estava todo machucado, seu caso era gravíssimo, ele morreria com certeza, pois não podia se mover, apenas se rastejar, o seu rosto estava coberto de sangue e com a perna quebrada esse moço com certeza morreria aos gritos sem que ninguém o salvasse, porque esse homem estava em pleno sertão para ser comido pelos animais selvagens, perto dele estava apenas uma floresta, seu cavalo que parecia compadecer da sua dor, mas não podia lhe ajudar, ele jamais encontraria socorro, pois a estradinha está abandonada há muitos anos, ninguém mais passa por ali, mas Deus enviou um anjo ali com uma missão tão bonita, a missão era salvar aquele moço e ela apareceu ali na hora certa e cumpriu sua missão. Flávia, você é um anjo que Deus colocou no meu caminho, assim que eu estiver curado eu vou embora, mas eu terei por ti eterna gratidão.

Flávia se emociona ao ouvir as palavras de Heleno, e se entristece ao ouvi-lo dizer que quando estiver bom vai embora, pois o seu coração já estava sendo marcado pelo amor que ela sentia por ele, mas ela disfarça para que ele não perceba que ela já não respira mais o mesmo ar quando está em sua presença e antes de sair do quarto ela diz essas palavras;

– Heleno, você vai mesmo embora? Vai pro garimpo? Não vá não, fique aqui comigo!

– Moça, moça… – diz moça numa suavidade que acalenta a alma de Flavia – essa é minha sina… ir pras minas cavar a terra em busca do ouro que fará meu pai feliz e garantirá um futuro pros meus irmãos. Eu não posso mudar minha missão, eu preciso sair da pobreza, preciso realizar o sonho do meu velho pai, eu quero comprar um sítio na beira do rio pro meu paizinho. É Flávia, assim que eu estiver bom eu partirei, mas eu te prometo que na volta eu passarei por aqui e trarei pra você uma jóia de ouro puro, ou a pedra mais valiosa que eu encontrar lá na mina.

Os olhares se cruzam nos ares, os corações dos dois jovens sonhadores batem acelerados, ele abaixa a cabeça e ela sai imediatamente do quarto para não chorar na sua presença. E neste meticuloso instante, a menina- moça, sonhadora d’margem do Rio Vermelho, percebe que, ao passo em que curava as feridas de Heleno, que as mesmas iam secando, restaurando, cicatrizando, uma ferida aberta brotava em seu peito; e já começara a doer, sangrar.

Nesse momento lá no meio do sertão, no Sítio Explanada, a saudade castiga a família de Heleno.

– Elias, já faz dois meses e alguns dias         que o nosso filho saiu de casa, será que ele está bem, será que ele já achou alguma pedra de ouro, eu já estou com muita saudade dele.

– Se ele está achando ouro só Deus sabe, só Deus sabe também o quanto eu estou sofrendo com a ausência do nosso filho, as crianças tem dias que choram de saudades dele. Heleno é um moço muito amoroso, mas nós temos que ter paciência porque ele disse que ficaria longe no mínimo um ano a um ano e meio.

Mais vinte dias se passam, Flávia entra no quarto e Heleno faz a ela uma pergunta.

– Flávia, me diz uma coisa, quer dizer que toda essa terra, nas margens do rio é do seu pai?

– É sim, o nosso sítio tem quarenta e seis alqueires, ele faz fundo com o rio e é todo banhando pelas águas do Rio Vermelho, suas margens descem toda a extensão das terras do meu pai até pra baixo da ponte, por isso é que o sítio se chama rio vermelho.

– O sítio de cima, de quem é?

– É do Senhor Enrique Godoi Ribeiro, não é um sítio, é uma imensa fazenda, quatrocentos alqueires de terra, ele sonha em comprar o sítio do meu pai para fazer pasto, ele é um grande criador de gado, é um homem maldoso, sabe que nós não queremos vender o sítio e vive sempre insistindo, chega a ameaçar para adquirir nossas terras, tudo por causa do Rio Vermelho que banha o nosso sítio de ponta a ponta, ele tem dificuldades com a falta de água, enquanto que aqui é abundante.

– E daqui até santa rosa é longe?

– É bem longe, de cavalo vai demorar o dia quase inteiro para chegar se você for devagar, se for galopando deve demorar umas seis horas em média, você não está pensando em ir a cavalo não né?

Os dois dão um belo sorriso e ele continua o assunto.

– Mas o que eu faço com o meu cavalo, onde eu vou deixá-lo?

– Ora, ele vai ficar aqui comigo e quando você voltar pra me dar o presente prometido, só então você o leva embora, lá pro seu sertão.

Novamente os dois sorriem felizes.

Cinco meses depois, tudo está divinamente sob controle, enquanto Kátia, Carla, Isaías e Débora se distraem com o serviço da casa e do sítio, Flávia foca sua atenção e o seu tempo em cuidar somente de Heleno. E foi numa manhã de quarta-feira, Flávia entra no quarto com uma bandeja com café e pão para servir o jovem rapaz, ela tem uma surpresa, encontra o moço andando no quarto, escorando na parede.

– Que coisa boa Helena, você já está andando! Agora eu não vou mais precisar trazer o seu café, o seu almoço e o jantar aqui no quarto pra você né?!

Com a voz triste e melodiosa Heleno responde com essas palavras que fere de um jeito emotivo o coração da moça.

– É Flávia, é verdade, você não vai mais precisar cuidar de mim, eu acho que perdi a minha enfermeira tão carinhosa que cuidou de mim por sete meses, que pena que eu me recuperei tão depressa, que a enfermeira maravilhosa, que primeiro me salvou a vida e depois me restabeleceu a saúde, Flávia, daqui a três dias eu vou embora, mas eu nunca te esquecerei, não vou nunca me esquecer da sua família, mas você Flávia, ah! Você foi o máximo na minha vida, foi tudo de bom que me aconteceu até hoje, mais uma vez eu volto a dizer, eu terei por ti uma eterna gratidão, você sempre será lembrada por mim como o meu anjo da guarda.

Os olhos do rapaz ficam marejados de água, as lágrimas deslizam suavemente no rosto de Flávia, a doce e bela menina do sertão. E então, aquela ferida que nascera junto com as cicatrizes daquele moço, até outrora desconhecido, cresce mais um pouco no coração da garota; Flávia está a ponto de saltar nos braços de Heleno, Heleno está a um passo de saltar nos braços de Flávia, mas eles se controlam para que isso não aconteça, e Flávia conclui:

– Heleno, não vai embora, fique aqui comigo!

E o moço responde:

– Flávia, eu vou embora com o coração partido, mas eu tenho que ir, eu não posso ficar, eu tenho uma missão a cumprir, eu quero realizar o sonho do meu pai, comprar um sítio pra ele na beira de um rio, não posso atender o seu pedido porque as pessoas que eu deixei para trás precisam de mim.

Flávia, ao ouvir a resposta de Heleno se entristece e deduz em seu pensamento que Heleno deixou para trás uma namorada, pensa em perguntar, suas pernas tremem e ela não consegue fazer a pergunta com medo de ficar decepcionada. Os olhares se cruzam nos ares, um suspiro fundo, e surge então o primeiro flerte, naquele momento o amor começa a brotar em dois corações em pleno sertão. Os dois disfarçam e ela o chama:

– Vamos para a cozinha.

– Sim Flávia, vamos para a cozinha.

Os dois seguem para o café da manhã com os corações acelerados.

A família de Flávia está em volta da mesa, Carla, Kátia, Débora e Isaías, e para a surpresa de todos Flávia aparece ao lado de Heleno.

– Mas que alegria contempla meus olhos! Você já está andando, em plena recuperação, rapaz!

– É senhor Isaías… eu já estou em forma para ir cavar as montanhas em busca do ouro.

Todos sorriem, menos Flávia que está com o coração apertado, em três dias irá embora o moço que ela está amando e talvez para nunca mais voltar. Sai do ar por uns breves segundos, revivendo já com saudade, o momento em que encontrou ali, próximo às margens do rio, aquele moço ferido, indefeso, que ela pôde amparar, dar abrigo, e agora faz morada em seus pensamentos, em cada detalhe destes, domina seus sonhos, dono unigênito de seu coração…ah, esse pobre coração! E Flavia gostaria que tudo acontecesse ontem, para que o tempo voltasse, e esse Senhor Tempo desse à ela mais uma vez, todas as horas, os minutos, todos os olhares, os toques de cuidado, tudo que vivera com este rapaz, por quem se apaixonou perdidamente. Ela olha para Heleno com um olhar de tristeza. Isaías continua o assunto:

– Você vai mesmo nos deixar, vai embora?

– Eu tenho que ir, essa é a minha única solução, tudo que me resta para tentar sair da pobreza e amparar o meu pai e minha mãe, e é claro, realizar o sonho do Sr. Elias da Silva que quer ter um sítio na beira do rio.

– Que pena que você vai embora, nós já estávamos acostumados com você, nós vamos sentir muita saudade Heleno.

– Eu também vou sentir muita saudade de todos vocês, eu vou embora com o coração partido em pedaços, só Deus pode pagar tanto amor que vocês tiveram comigo, se um dia eu puder retribuir isso eu farei com todo prazer.

– É Heleno, a gente nunca sabe o que pode nos acontecer amanhã. E quando pretende ir embora, ir pras minas?

– Em três dias eu partirei. Flavia me disse que o senhor me leva até Santa Rosa e que ela vai cuidar do meu cavalo até a minha passagem por aqui na minha volta.

– Ela cuidou muito bem de você, com certeza cuidará bem do seu cavalo.

Todos sorriem, e Heleno diz essas palavras:

– Mas antes de eu ir embora seu Isaías, Dona Débora, eu gostaria de fazer um pedido.

– E qual é esse seu pedido Heleno?

– Amanhã eu gostaria de passear a cavalo para conhecer todo o seu sítio, Flávia me disse que aqui tem muitas belezas naturais, tais como minas, cachoeiras, matas, montanhas, campinas floridas, grutas embutidas nas pedras e outras paisagens que deixam qualquer um encantando, e essa que ela me falou me deixou curioso, eu sou do sertão e sei que na natureza existem muitas belezas que nos encantam, quero sair bem de manhã e voltar só no entardecer, quando o sol já estiver indo embora, daqui a três dias eu vou embora, vou cumprir minha missão, mas quero levar daqui muita coisa bonita na minha bagagem, além da saudade que com certeza me acompanhará todos os dias da minha vida. Mas para brindar o meu passeio, seu Isaías, Dona Débora, eu quero fazer mais um pedido.

Heleno abaixa a cabeça, faz uma pausa e fica pensativo.

– Fale Heleno, qual é o outro pedido que você tem a fazer?

– É seu Isaías, o meu passeio só será brindado de emoções com a sua filha na minha garupa, é isso Isaías, eu quero levar junto comigo a Flávia, quero passear o dia todo com ela, por essas montanhas, grutas, ver de perto esse paraíso bucólico que vocês têm aqui, como forma de gratidão por tudo o que ela me fez.  Foi no fim do sertão seu Isaías, a cinqüenta metros da ponte que eu sofri o acidente e foi na sua casa que eu fui socorrido e foi a sua filha que me salvou da morte, e antes de partir para o garimpo eu gostaria de ficar com ela o dia todo passeando por esses vastos campos, em tão agradável companhia.

O silêncio toma conta do recinto, o pedido de Heleno deixa todos comovidos, e Isaías conclui:

– Heleno, você tem toda liberdade do mundo, eu confio na sua sinceridade e acho que você não vai fazer nada errado conosco depois de ter recebido tanto amor aqui na minha casa,você pode sim levar a Flávia na garupa do seu cavalo.

No outro dia bem cedo então saem a cavalgar pelas estradas e carreadores do sítio, Flávia lentamente vai mostrando toda beleza natural, a imensidão de maravilhas advindas de um ambiente aconchegante, rodeado de tudo que tem de belo na natureza, e de tudo que tem ali no sítio. O dia já se finda, e Flávia, observando o pôr do sol, diz essas palavras:

– Agora, para findar o nosso passeio nós vamos lá no rio onde eu lavo a roupa.

Os dois chegam às margens do rio e ela mostra o lugar onde ela estava quando ouviu o relinchar do cavalo, depois os dois descem as margens do rio e param em uma sombra,e ficam ali sorrindo, conversando. Em dado momento eles ficam frente a frente, a meio metro de distância ela está encostada na árvore e ele bem a sua frente, ela não consegue mais se segurar:

– Heleno, só faltam dois dias pra você ir embora e eu quero lhe fazer uma pergunta, e quero que você seja bem sincero comigo, por favor, não minta pra mim, você já está aqui há bastante tempo e nós estivemos juntos todos os dias, quase o dia todo e eu sempre quis te fazer uma pergunta, mas nunca tive a coragem de perguntar com medo de ficar decepcionada, mas esse é o momento, pois, daqui a dois dias você irá embora.

Os instantes que se seguiram, foram tão absolutamente silenciosos, que o barulho das águas na correnteza longe dali, se fazia ouvir orquestradamente, misturado ao arrulhar dos passarinhos, que insistiam em fazer por ali um ninho.

Flávia chega o seu corpo no corpo de Heleno e olha com um terno olhar nos olhos do moço e faz a pergunta tão esperada, tão desejada.

– Heleno, você tem namorada? Me responda agora, olhando em meus olhos, se você disser que não tem eu vou te esperar, ou vou embora com você.

Heleno fica estático, meio sem jeito, fica pálido e crava os olhos nos olhos de Flávia, e se cala por um instante, não diz nada.

– Vamos Heleno, me diz, me responda, você tem namorada?

Heleno, com os olhos brilhando de tanta emoção, responde a pergunta de Flávia:

– Sim, Flávia, eu tenho namorada, eu cresci ao lado dela, ela faz parte da minha vida, como eu a amo, como ela é bonita, ah! Os seus encantos me fascinam! Sem ela eu não consigo viver, ela me dá tanta paz, somos inseparáveis, eu a conheci quando ainda  era uma criança e nunca mais nos separamos; ela enche os meus dias de alegria e vida, e,  jamais a deixarei. Eu posso lhe dizer o nome dela…

 

Parte III

 

– Não, Heleno, eu não quero saber o nome de ninguém, para mim o sonho acabou, minha esperança nesse momento acaba de morrer, o meu coração está em pedaços, eu desejo a você muitas felicidades ao lado dela. Agora eu vou embora, você não precisa me levar, eu vou andando!

Flávia diz essas palavras com os olhos cheios de lágrimas. Heleno, em silêncio, ouviu tudo, deixou a moça desabafar e depois disse, assim, como alguém, que sopra uma gaita, tomando o cuidado de não errar as notas, para não errar o som de sua doce melodia:

– Flávia, você não quer saber o nome dela, mas eu vou te dizer, porque eu sinto que preciso que preciso lhe dizer, eu não quero ver sofrendo a pessoa que me deu tanto amor, que salvou a minha vida, você não quer saber o nome dela, mas eu vou te dizer, o nome dela é Natureza. Sim, Natureza Flávia… a natureza é a único namorada que eu tive até agora. Eu nunca abracei uma moça, eu nunca beijei uma mulher, Flávia, eu nunca namorei, eu nasci e cresci no sertão, muito bem longe da cidade, o meu convívio até hoje foi só com a mãe natureza, essa obra prima que nenhum ser humano consegue descrever. Essa coisa tão linda que você acabou de me mostrar, sim, Flávia, é ela, a natureza, a única coisa que tem me encantado até esse momento, ela até hoje foi a minha namorada; e é junto Dela que desperto todas as manhãs, contemplando o dourado dos raios de Sol e o melodioso cantar dos bem-te-vis…em seus mansos braços, deito-me todas as tardes, à face de um riacho qualquer e acabo adormecendo…e enfeitiçado por suas matas e sons de diferentes espécies eu me apaixono por ela, novamente, todas as noites, observando a grandeza do crepúsculo, quando a vejo recolher-se em sua esplendorosa e tímida beleza. Como é lindo olhar o verde das matas, como é bonito ouvir o canto dos pássaros em uma sinfonia tão perfeita louvando a Deus, que beleza é olhar as águas cristalinas de um rio descendo em direção ao mar, como é belo olhar o brilho das estrelas e o clarão da lua e o resplandecer do astro-rei chamado Sol! Flávia, a natureza me deixa encantado, mas eu não posso me casar com a natureza, eu apenas a amo, eu quero namorar uma moça, depois  me casar com ela e pretendo dar a ela toda felicidade do mundo; quero ter um lar honrado por Deus, há tempos que eu peço à Deus para que Ele envie uma moça ao meu caminho, e hoje ela está bem aqui na minha frente e eu estou olhando em seus olhos, em seus cabelos tão lindos, tão negros e longos, e eu estou todo arrepiado com tanta beleza em um único ser. Flávia, eu te amo e quero me casar como você… Quer se casar comigo?

Flávia ouve atentamente a declaração de amor que Heleno tem pela natureza e por ela mesma, o chão parecia não estar debaixo dos seus pés, ela flutua no espaço, fica estática, quase não crê nas palavras que ela acabara de ouvir, faz um silêncio relâmpago, e, depois com os olhos em lágrimas, conclui:

– Heleno, eu sou semelhante a você, eu também nasci no sertão e aqui vivo até hoje, nunca tive luxo e nem vaidades, a natureza faz parte da minha vida, eu também nunca tive um namorado, nunca conheci os carinhos de um homem, sou pura como as flores silvestres que perfumam e embelezam as campinas verdejantes, eu sempre pedi a Deus que me enviasse aqui no sertão um moço de qualidades para se casar comigo, e você apareceu do nada, surgiu do meio do mato… Heleno, você também é um anjo que Deus colocou no meu caminho, eu quero, sim, Heleno, me casar com você!

Não deu mais para segurar tantas emoções: (explode coração!) os dois se abraçam, se beijam e se acariciam calorosamente, quem até então nunca tinha abraçado e beijado, agora se abraçam, se beijam com ternuras, têm agora uma explosão de amor. Minutos depois os dois andam de mãos dadas às margens do rio. E por testemunha desse amor tão lindo, tão puro, quem mais poderia ser, do que outro ser também tão puro e verdadeiro? Claro, a mãe Natureza! Espiando, aplaudindo, amadrinhando cada palavra, cada carícia, nascida ali, às entranhas de sua mata virgem. Esse foi o início de um amor tão lindo, que nasceu em dois corações em pleno sertão, sendo que as águas do Rio Vermelho ficaram por testemunhas daqueles momentos tão felizes que viveram os dois jovens sonhadores que estavam se amando pela primeira vez.

Depois os dois seguem até a sombra de uma árvore e sentam ali naquele sombreiro, e Flávia diz essas palavras:

– E agora, Heleno, você mudou em alguma coisa os seus planos?

– Não, Flávia, eu não posso mudar os meus planos, eu saí em busca de um sonho e eu preciso realiza-lo, só que agora não é mais somente um sonho, agora são dois sonhos que eu preciso realizar, o sonho do meu pai e o nosso sonho de amor. Eu quero comprar um sítio na beira do rio e construir duas casas, uma para meu pai – bem pertinho do rio – e, mais pra cima, uma outra casa para realizar o nosso sonho de amor, e ali, Flávia, será o nosso cantinho de felicidades, me espere, Flávia, você tem que me prometer que vai me esperar pelo tempo que for preciso, só assim eu partirei com a esperança de realizar o nosso sonho de amor. Eu creio que em um ano ou no máximo um ano e meio eu estarei de volta, se eu não achar ouro nesse tempo, mesmo assim eu voltarei, a gente se casa e traça um outro plano, pois eu não consigo mais viver sem você, Flávia…

– E nem eu consigo viver sem você, Heleno…

Os dois então se abraçam, se beijam e ali ficam por alguns minutos trocando juras de amor. Minutos depois:

– Agora você vai me levar aonde você caiu.

– Mas como assim, eu vou te levar?

– O rio aqui é bem rasinho, olha como as águas são mansas, você vai me pegar no colo e nós vamos atravessar o rio, e você vai me carregar nos braços até lá do outro lado…

– Está bem.

Heleno pega Flávia no colo e eles atravessam o rio e chegam ao local do acidente. “Foi bem aqui que eu te encontrei desmaiado, esse aqui, Heleno, é o ponto onde nós nos conhecemos, aqui é a origem do nosso amor, você deve amar muito o seu cavalo, pois se ele não tivesse relinchado, você com certeza passaria direto e não ia me ver, o susto do seu cavalo é a causa de nós termos nos conhecido”.

– Esse cavalo ficará comigo todos os dias da minha vida, ele morrerá de velhinho relinchando pasto a fora. Agora vamos embora que o tempo não espera.

– Sim, está na hora…

Os dois seguem andando, atravessam a ponte, descem à beira do rio, montam no cavalo e, minutos depois, como uma flecha rasgando o horizonte, estão em casa.

É hora do jantar, todos estão na cozinha, e Isaías faz uma pergunta:

– E daí, Heleno, o que você achou do sítio?

– Seu Isaías, que coisa linda, tudo aquilo que a Flávia havia me falado eu pude ver, o senhor tem um paraíso nas mãos, quantas belezas eu pude contemplar, como eu gostaria de morar em um lugar tão bonito como esse, eu vou embora com o coração apertado, em dois dias eu partirei, mas o meu coração está em pedaços, esse é o momento crucial para mim, mas antes de eu me despedir de vocês, ainda tenho algo a dizer, é algo que me deixou encantado, senhor Isaías… (O moço faz um surdo silêncio por uns breves momentos).

– Fala, Heleno, o que é que temos aqui no sítio que te encantou?

O moço, meio sem jeito, e com uma voz suave responde:

– É a sua filha, Seu Isaías, é a Flávia, eu quero pedir a mão dela em casamento…

– Que coisa bonita que nós acabamos de ouvir, Heleno! Fazemos gosto em tê-lo conosco, é claro que nós, eu e Débora, queremos ter um genro como você!

Um clima de alegria paira sobre o recinto, a família sorri emocionada.  Minutos depois, vem a pergunta:

– Mas você vai embora, não vai, e como vai acontecer esse casamento?

– Eu vou para as minas, mas em um ano ou no máximo um ano e meio eu estarei de volta, nós já conversamos sobre isso, e a Flávia vai me esperar o tempo que for preciso. Eu preciso ir, senhor Isaías, cumprir a minha missão.

– Tudo bem, Heleno, nós vamos te esperar para fazer esse casamento, mas tem um porém, Heleno, você diz que vai embora daqui a dois dia, não é?

– Sim, daqui a dois dias…

– Daqui a dois dias é sábado, e você não pode ir embora, o local do seu embarque para as Minas não é Santa Rosa, fica a seis km para frente, é na Fazenda do senhor Afonso, que é o dono da mineradora e o voo só sai dali na terça-feira, no sábado o escritório da firma que fica em Santa Rosa é fechado, e não da pra você preencher a ficha que o patrão exige de todos que vão para o garimpo, isso só será possível na segunda-feira, é só você se inscrever e o motorista te leva para a fazenda e na terça sai o voo para a mina e daí em diante, Heleno, ninguém mais terá contato com você, até a sua volta, eles não dão nenhuma informação sua se você está vivo ou morto, se você achou ouro ou não achou, isso é a norma da mineradora, muitos que foram ficaram ricos, mas alguns foram e não mais voltaram, e outros vieram da mina sem nada conseguir. A vida no garimpo, Heleno, é uma incógnita, nunca se sabe o que pode acontecer. Você vai precisar de muita sorte.

– Mas mesmo assim eu vou tentar, eis que eu tenho a orientação de um antigo garimpeiro, ele me ensinou tudo sobre o garimpo.

Eis que finalmente chegou o dia tão esperado. Heleno pega sua mala e coloca no carro, desce no pasto e dá um abraço no seu cavalo e diz essas palavras, com o rosto banhado em lágrimas:

– Amigão, não posso te levar, você vai ficar aqui, porque a viagem é muito longa, são mil e trezentos km que eu vou percorrer, mas me espera que um dia eu volto pra te buscar e você vai ficar bem velhinho relinchando em um pasto bem verdinho do meu sítio, e com fartura de água, porque o meu sítio será na beira do Rio Vermelho. E você, amigão, vai beber das águas do Rio Vermelho!

Depois Heleno vai até a cozinha, todos estão ali em volta da mesa, todos em silêncio, ninguém deu uma palavra, a tristeza preenche cada fresta do ambiente, quanto amor aquele moço tão humilde e tão bondoso semeou naquele lar, e quanto amor ele também recebeu daquela bondosa família! Todos estão inconformados com a despedida do jovem rapaz. Todos estão tomando café de cabeça baixa, e Isaías quebra o silêncio com essas palavras:

– Heleno, eu sei que você quer cumprir essa sua missão e ir para a mina garimpar, mas ainda dá tempo de você mudar de ideia e a gente se ajeita por aqui mesmo, não vai embora, fique aqui conosco.

– Seu Isaías, esse é o momento mais crucial da minha vida, parece que o mundo desabou em cima da minha cabeça, eu vi o brilho nos olhos dos meus pais e dos meus irmãos, eu percebi o quanto eles me amam, mas eu superei a dor daquela despedida, porque eu saía em busca de um sonho para fazer a felicidade do meu pai e para sair da pobreza; quando eu montei no meu cavalo naquela manhã, eu fiz um propósito comigo mesmo, e eu adquiri a força de um vulcão, e pensei comigo mesmo, “eu vou vencer essa batalha nem que eu passe por dias amargos, mas eu vou cumprir a minha missão”, agora, seu Isaías, eu digo para todos vocês, esse é outro momento amargo para mim, talvez mais do que aquele ali na hora em que eu me despedi de minha família, porque agora eu vou deixar para trás uma família que não me criou, que não é de sangue, mas que criou em mim laços tão profundos de amor, que estão arraigados em cada gota de meu sangue! Uma família tão maravilhosa, que me amou como se fosse a minha própria! Vou deixar para trás a única moça que eu amei, seu Isaías, a sua filha fez nascer um amor imenso no meu coração e eu vou ter que me separar dela e sem data para voltar, sem nem saber, meu senhor, se vou voltar. Dizendo essas palavras, a emoção tomou conta de todos, e Flávia e Heleno se abraçam, choram por alguns minutos. Uma tristeza, uma solidão invade o local, ferindo com sua arma mais poderosa: a separação! Não dá mais para esperar, é a hora da despedida, Isaías e Heleno seguem para o carro, e a família de Isaías fica na varanda acenando com as mãos até que o carro some no estradão. Junto com aquele carro, foi-se a alegria e o coração de uma pobre moça apaixonada. Perdidamente apaixonada! E junto com a poeira levantada na estrada, uma angústia ali crescera, e já vinha brotando uma tenebrosa e dolorida saudade…

Dez horas e vinte minutos, o carro está em frente ao escritório da fazenda em Santa Rosa, e duas horas depois Heleno é deixado na sede da mineradora, e, no dia seguinte, ele e os demais contratados levantam voo em direção às minas.   Quinta-feira; e lá está Heleno, cavando as montanhas em busca de ouro. A jornada em busca de seus sonhos está apenas começando.

 

Parte IV

Dois anos se foram desde o dia em que Heleno deixou sua família no sertão, e embalado por um sonho tão bonito que brotara em seu coração, um sonho que tinha um só objetivo, cuja finalidade da sua partida naquela manhã era somente uma, realizar o sonho do seu velho pai e amparar seus familiares, e naquela manhã de domingo ele se despede da sua família. E na viagem acontece o inesperado, Heleno sofre um grave acidente, é socorrido por uma linda moça com um coração de anjo. E em seus corações nasce então um grande amor, e hoje ha dois anos longe do sertão e do seu grande amor, tudo em sua vida virou motivo de saudades. Quem é que não sente saudades da sua terra natal, mesmo que esteja prosperando na vida? Quem é que não sente uma louca saudade de um grande amor que foi separado apenas por uma longa distancia, mas que está unido pelo coração?  No mundo romântico quem é que não sente saudades de alguém? E aquelas longas e doces tardes ao lado de sua amada, assolavam os pensamentos do rapaz, que ficava por horas a fio, submergido naquelas lembranças gostosas de outrora.

Era uma sexta-feira, duas horas da tarde, o sol queimava como brasa, no rosto de Heleno, o suor desce como gotas de orvalho e rolava pelo seu corpo já cansado de cavar a terra, ele então resolve tirar um descanso, dá alguns passos pra frente e se esconde atrás de uma rocha onde o sol não alcança; no momento, pega um pano que está envolto em seu corpo e enxuga o rosto, senta-se ao pé do morro, olha em sua volta e observa aquele amontoado de homens cavando a terra, naquele vale montanhoso, e nesse momento o que sente é só saudades; e nesse instante nostálgico ele trás a tona tudo aquilo que viveu desde a sua partida ali do sertão, não consegue se conter e derrama suas lágrimas.

E nesse momento lá no sítio explanada a saudade também castiga e martiriza seus pais e seus dois irmãos, seu Elias está debaixo da árvore sentado em um banquinho e a esposa chega e fala sobre o filho:

– Meu velho já faz dois anos que o Heleno foi para a mina e nem notícias nós temos dele, ele nos disse que iria voltar no máximo em um ano e meio e até agora nada, eu estou com medo que algo tenha acontecido, estou sofrendo muito com a ausência do nosso filho. Levanto todas as manhãs e o que me dá forças pra continuar lutando é a esperança de que ele vá abrir aquela porteira, apressar os passos até essa varanda, gritando “mamãe, papai, estou de volta”..e então eu correria ao seu encontro, soltaria um grito de alegria, que está entalado em minha garganta, sufocando meu peito…e voltaria meus olhos ao alto, agradecendo ao meu bom Deus, por me presentear ainda com esta dádiva, antes de me levar ao seu lar eterno: a de abraçar meu filho mais uma vez, saber que ele está vivo! Ah como seria bom…

Dizendo essas palavras ela derrama suas lágrimas.

– Eu também estou muito preocupado, ele me disse que em um ano e meio no máximo voltaria com ou sem ouro, a saudade é demais, está difícil para suportar, eu já não tenho mais nem vontade de viver, que saudades de meu querido filho! Como queria olhar seu rosto e dar-lhe um abraço gostoso, matar essa saudade doída.

E nesse momento lá no sítio Rio Vermelho também acontece o mesmo, o assunto é Heleno e a seca que atinge a região de Santa Rosa, deixando assim os agricultores da região em grandes dificuldades com a perda da colheita.

Mais um ano se passa, são agora três anos que Heleno deixou o sertão, é um domingo de manhã, todos os garimpeiros estão descansando e novamente a saudade chacoalha o coração de Heleno, ele faz uma reflexão e fala consigo mesmo essas palavras:

– Quanta saudade eu sinto do meu sertão, ah meu singelo sertão querido… aqui eu não sinto o cheiro das flores de jasmim, nesse fim de mundo, onde só vejo montanhas eu não sinto o perfume do mato, não vejo o verde contagiante de uma floresta, aqui não ouço o canto dos pássaros anunciando o amanhecer e o anoitecer do sertão, já tenho uma conta gorda nos cofres da mineradora, mas ainda não é o que eu preciso. Eu bem que poderia ir embora. Não posso decepcionar meu pai, preciso dar a ele uma velhice digna, e quando meu velho daqui partir, quero ter em meu coração a certeza de que, lutei, sofri, mas fiz tudo que estava ao meu alcance para vê-lo feliz! Realizar o sonho daqueles que sempre viveram e morreram para me criar, me alegrar, e que se sou alguma coisa hoje, devo aos seus ensinamentos.

Mas depois de falar consigo mesmo essas palavras ele pensa no sonho de seu pai, ele pensa no seu sonho de amor com Flávia e chega a conclusão que ainda não é hora de voltar, o ouro que ele achou ainda não é suficiente para que ele realize o seu sonho. E na visão do pensamento ele vai lá na casa do seu Antunes e lembra de tudo aquilo que ele ouviu do antigo garimpeiro que um dia também esteve ali onde ele está. Suas palavras soam em sua mente:

– Você tem que ser forte para agüentar o serviço que é pesado, você tem que ter muita opinião para suportar a saudade das pessoas que você deixou para trás.

Todas as palavras daquele sábio ancião vêm à tona em sua mente. Ao meditar nas mesmas,que ele ouviu do velho garimpeiro na presença do seu pai, e se lembrar das palavras que o seu pai disse:

– O meu filho vale ouro, ele vai vencer essa parada.

Depois de pensar tudo isso ele cai na realidade, e faz uma nova reflexão:

– Não, eu não posso fracassar, eu tenho que cumprir a minha missão, só vou embora daqui quando eu puder realizar o meu sonho.

E nesse momento lá no sítio Rio Vermelho a saudade de Heleno é o assunto da família e Isaías comenta com a esposa essas palavras:

– Débora, eu estou achando que o Heleno não volta mais, ele foi pro garimpo há três anos, disse que voltaria em um ano e meio no máximo e até agora não apareceu.

– É Isaías, eu estou com muita pena da nossa filha, ela está muito triste, está abalada, mas não desiste, diz que vai esperar o tempo que for preciso e sabe que ele vai voltar. Afirma que Heleno está vivo, e que retornará para fazê-la feliz; que seu coração não se engana.

E nesse momento a cinqüenta metros da casa embaixo de uma árvore, está Flávia conversando com o cavalo de Heleno, fazendo um desabado como se o cavalo estivesse entendendo o que ela está falando:

– É meu caro amigo Lustroso, você foi a causa da minha felicidade, aquele dia que você derrubou Heleno e relinchou bem alto para que alguém viesse socorrê-lo e então foi quando eu o conheci entre a vida e a morte, e ali, amigão, começou a nascer o nosso amor, foi ele o meu primeiro amor! Dizem que o primeiro amor a gente nunca esquece, eu não sei dizer se isso é verdade porque eu nunca amei outro alguém, mas uma coisa eu posso te dizer, eu nunca mais vou esquecê-lo, se ele não voltar eu ainda estarei com o meu coração repleto de amor por ele. Você foi a causa da minha felicidade, mas hoje é você o culpado da minha dor, foi o seu brado que colocou-o em meu caminho. Vá lá amigão, diz pra ele voltar, diz pra ele que ele não precisa ficar rico para se casar comigo, nunca tive ambição, luxo e nem vaidades, vai lá e diz pra ele voltar mesmo que ele ainda esteja pobre, porque eu estou à sua espera.

Dizendo essas palavras, Flávia abraça o cavalo e chora amargamente.

Dois meses depois é uma quinta-feira, Heleno está cavando no pé de um morro e resolve mudar de lugar, se afasta de todos que estão ali por perto, sobe um morro e desce outro, sobe uma colina e desce outra, fica bem distante do povoado, mas tudo ali em sua volta faz parte do garimpo, não há ali nenhum sinal de picareta e ele fica curioso e fala consigo mesmo:

– Se toda essa região aqui é da mineradora, por que será que ninguém cava essas montanhas?

E continua a observar aquelas colinas em sua volta e resolve cavar ali, picareta sobe e desce o buraco já estava grande, quando de repente a picareta desce e ele sente um impacto nos braços, a picareta bate em uma pedra muito grande, Heleno então pega a pá e tira toda terra que está em volta da pedra, se ajoelha e com as mãos ele limpa a pedra e se espanta.

– Meu Deus o que é isso, eu nunca vi uma pedra como essa desde que cheguei aqui, ela é muito diferente das outras! Será que estou delirando, que este sol afetou meus pensamentos?

E com medo que alguém viesse por ali ele tampa o buraco, esconde a pedra, e se lembra das palavras que um dia ele ouviu do Sr. Antunes, o antigo garimpeiro que um dia lhe deu um conselho:

– Se você achar uma pedra de valor, não de alarme pra ninguém, senão você pode ser roubado e morto, até na mina tem pessoas bondosas que são de Deus, mas tem pessoas maldosas que te matam para te roubar, quando você desconfiar que a pedra é valorosa, procure o encarregado o mais rápido possível e conta pra ele sobre o que você achou.

Lembrando dessas palavras que um dia ele ouviu daquele sábio ancião ele volta lá no escritório e conta a história para o encarregado. O encarregado então chama o gerente e o gerente chama o perito para examinar a pedra, e os quatro homens, Heleno, Rogério que é o encarregado, Roberto que é o gerente e o Sr. Macedo que é um perfeito perito em examinar as pedras ali do garimpo, os quatro seguem juntos em direção da colina onde está a mesma, andam por quase uma hora e chegam ao local, o gerente bem cansado olha para Heleno e lhe dirige essas palavras:

– Moço, aonde você veio cavar, é muito longe do garimpo, aqui por essas bandas nunca teve um garimpeiro, eu acho que você está enganado, deve ser uma pedra qualquer.

– Vamos conferir. – responde o encarregado.

Heleno pega a pá e remove novamente, abrindo o buraco, a pedra fica com a parte de cima pra fora e o resto dentro da terra; o perito se abaixa, fica de joelhos e com uma vassourinha limpa a parte da pedra que está pra fora, e com muito trabalho eles tiram a pedra pra fora, examina e fica pálido, olhando aquela pepita e exclama:

– Seu Roberto, eu ainda não vi uma pepita tão valiosa como essa, nunca na história do garimpo se viu algo tão valioso, essa pepita passa de quinze quilos.

Seu Rogério que é o encarregado da mina olha para Heleno e dirige algumas palavras:

– Moço, você pode se considerar um homem rico.

Seu Roberto responde:

– É meu amigo, com o ouro que você já tem no nosso cofre e mais essa pedra você pode voltar pro teu sertão, porque a sua sorte chegou, você é o garimpeiro que mais tempo ficou aqui conosco, são três anos e alguns meses, não é isso?

– Sim, três anos e dois meses e acho que alguns dias.

O gerente da mineradora conclui:

– Heleno, eu acho que valeu a pena você ficar todo esse tempo longe da sua terra, hoje você pode se considerar um homem rico. Seu tempo foi preciso, tão precioso quanto o valor dessa beldade que encontrou! E agora pode retornar como um verdadeiro herói, meu rapaz!

Todos sorriem, e o perito diz essas palavras:

– Agora vamos levar esse tesouro lá pro escritório, vamos pesá-la para saber o seu valor exato.

Uma hora depois a pepita é pesada, são dezessete quilos de ouro.

No outro dia de manhã Heleno é chamado no escritório e seu Roberto o recebe carinhosamente.

– Bom dia Heleno, eu vejo que você é mesmo um moço de sorte, ontem você achou uma pepita de dezessete quilos. Sei que você está ansioso para ir embora, hoje é sexta e na segunda sai o vôo para Santa Rosa, parece que a viagem para a sede do garimpo só estava esperando você achar esse tesouro tão valioso.

Heleno sorri feliz e conclui com essas palavras:

– Seu Roberto, foram três anos e pouco de saudades dos meus pais, meus irmãos e da mulher que eu amo. Foi difícil suportar, mas eu não poderia voltar sem cumprir a minha missão, eu sofri muito, derramei muitas lagrimas, mas valeu à pena passar por tudo que eu passei, sou muito grato a todos aqui do garimpo, eu não tinha nem palavras para explicar a minha gratidão, porque se não fosse o garimpo eu jamais poderia realizar o sonho do meu pai. É Seu Roberto, o meu pai sonha em ter um sítio na beira do rio e eu também tenho meus sonhos, e agora eu vou poder realizar.

Seu Roberto muito atencioso, ouve o desabafo do moço, que deixa transparecer aquela felicidade que escorria-lhe pelos olhos, derramavam-lhe pelos seus lábios em forma de sorrisos.

– E perdoe-me a sinceridade, Sr Roberto, mas não foi sorte. Foi Deus. Acredito que meu destino já estava escrito por Ele; e se, naquele dia, naquelas circunstâncias, encontrei tamanha riqueza, não foi sorte, foi porque me escolheu; e talvez Ele tenha um propósito em minha vida. Esse dinheiro, tão suado, tão sofrido, vai devolver a alegria e a paz de muitas pessoas que amo.

Ali no escritório tem várias pessoas e o encarregado dos garimpeiros dirige algumas palavras para Heleno:

– Você foi um garimpeiro muito exemplar, nunca nos deu trabalho, foi um ótimo funcionário, é uma pena que você vá embora, nós vamos sentir a sua falta e com certeza muitas saudades. As portas do garimpo estarão sempre abertas para você.

Após proferir essas palavras, os colegas de trabalho de Heleno, ficam emocionados, pois acompanharam o sofrimento e o sonho do rapaz, desde que chegara ali. E depois Seu Roberto conclui:

– O seu dinheiro irá pra sua conta lá na sede da fazenda, aonde você vai desembarcar do avião e ficará nos cofres até quando você quiser fazer a retirada, ele é equivalente a sua parte do valor da pepita de dezessete quilos e mais o restante que tinha guardado no decorrer dos três anos. Aqui está um extrato da quantia que você acumulou durante os anos trabalhados.

Heleno da um suspiro fundo, respira aliviado e responde com essas palavras:

– Seu Roberto, eu tenho tudo isso? – não acreditando na quantidade de algarismos que seus olhos estavam enxergando.

– Isso mesmo Heleno, você queria comprar um sítio, você pode comprar é uma imensa fazenda rapaz, e ainda te sobra muito dinheiro.

E finalmente chega a segunda-feira, Heleno levanta cedo e arruma a mala, o avião sai às onze horas, são dez horas e vinte minutos, o moço entra no quarto e faz uma longa oração, agradece a Deus por tudo que ele viveu ali e pede que Deus o abençoe na viagem de volta pro sertão;  e segue rumo ao embarque com os olhos marejados de lágrimas de tanta felicidade. O moço simples do sertão  dá um abraço apertado naqueles homens, que por algum tempo foram a sua família, pega a sua malinha surrada e empoeirada, que a falta de cuidado feminino marcava, e sai; sai rumo à vida; à nova vida. E no peito, um grito de saudade, de emoção, um misturado de sentimentos que queriam vir à tona, explodir, gritar ao mundo “Eu venci meu Deus, eu venci!”

Poucos minutos depois entra no avião e desembarca na fazenda do Sr. Afonso, e uma hora depois lá está Heleno, em Santa Rosa. Ele sobe a rua principal e vê em frente o fórum um aglomerado de pessoas. E no meio daquela confusão toda, ele procura saber se estaria acontecendo algum cerimonial religioso, um casamento talvez.

PARTE V

Na rua havia muita gente, na pequenina cidade o movimento era intenso, aquele movimento de pessoas em frente o fórum e em todo quarteirão chama a atenção daquele peregrino que acabara de chegar. Ele então para e pergunta para um senhor que está sentado em um banco da praça:

– O senhor poderia me dizer o que está acontecendo em frente daquele salão?

– Aquele salão que você mencionou é o fórum. Moço você não é daqui né?

– Não, eu estou de passagem, já passei aqui uma vez, isso foi há três anos.

– Então é por isso que você não sabe o que está acontecendo, eu acho que a única pessoa que não sabe o que vai ocorrer aqui hoje é você, todos por aqui na região de Santa Rosa sabem desse evento tão chocante.

– Confesso que estou curioso pra saber o motivo desse alvoroço em uma cidade tão pequena.

– Qual é o seu nome?

– Eu me chamo Heleno.

– O meu nome é Carlos, mais todos me chamam de Carlinhos. Mas eu vejo que você está com uma mala na mão, desculpe a curiosidade, mas,  como é que você veio parar aqui, de onde você vem, pra onde está indo?

– Eu viajei mil e trezentos quilômetros para chegar até aqui e eu estou indo para o sertão, só a cavalo eu vou ter que cavalgar quatro dias.

– Você deve estar muito cansado, sente-se aqui ao meu lado que eu vou lhe contar com detalhes o motivo dessa movimentação toda.

Heleno senta ao lado daquele senhor e ouve essa história:

– Aqui nessa região está uma seca muito grande, já não chove há muito tempo, os agricultores perderam tudo o que plantaram,  muitas propriedades, sítios e até algumas fazendas por aqui já foram a leilão, não conseguiram pagar os financiamentos que fizeram no banco, e o banco, caro amigo, não perdoa, só faz empréstimos em cima de penhora. E hoje é o leilão da propriedade do homem mais querido aqui de Santa Rosa, ele perdeu duas safras e gastou o que tinha e o que não tinha para cuidar da sua esposa que ficou muito doente, entrou em depressão ao ver a tristeza da filha que chorava muito por causa de um namorado que ela ama e que vive distante. Esses motivos foram a causa da dívida do Sr. Isaías que levou o sítio Rio Vermelho a ir a leilão, a propriedade mais cobiçada da região.

Heleno ouvia calado as palavras de Carlinhos e desfalecia o seu semblante, estava paralisado com a notícia tão cruel que estava ouvindo, e o Sr. Carlos continua com suas palavras que feriam profundamente o coração de Heleno.

– O Sr. Isaías é um homem honesto e muito honrado, quanta caridade esse cidadão fez aqui nessa cidade, quanta bondade ele fez entre nós e agora está vendo a sua única propriedade ir a leilão, a cidade de Santa Rosa está enlutada, todos aqui estão com pena do Sr. Isaías.

Quando aquele cidadão termina de falar, ele olha para Heleno e percebe que o moço está pálido.

– Moço, você está passando bem? O que te aconteceu? Você está pálido. Talvez seja a canseira de uma viagem tão demorada?!

– Não, fique tranqüilo, eu estou chocado com essa notícia que você me passou. Eu vou te contar a minha história: eu conheço toda família do Isaías, a sua filha me salvou a vida, foi lá na casa dele que eu fiquei um bom tempo com a perna quebrada, até que eu fiquei bom, e de lá eu fui para o garimpo com promessas de voltar e casar com a Flávia, a sua filha caçula.

– Não é possível, então é você o moço que eles tanto esperavam, é por você que a Flávia está sofrendo?

– Sim, eu vou ser o futuro genro do Isaías.

– Todos aqui na cidade sabem dessa história,  Isaías vem aqui quase todo dia, e nos contou tudo isso e algo mais do que você está dizendo!

– Mas não diga nada pra ninguém por enquanto, eu não quero que a família do Sr. Isaías saiba que eu estou aqui, quero assistir o leilão e depois eu vou para o sítio, quero fazer uma surpresa. Mas me diga uma coisa, tem muita gente para disputar esse leilão?

– Sim, tem muitos fazendeiros aqui da região, o sítio é muito cobiçado porque ele faz fundo com o Rio Vermelho e desce por toda sua margem. Enfim, a sua cerca de um lado são as águas do rio.

– E quem é que o Sr. acha que tem mais chance de arrematar o leilão? É alguém daqui ou de longe?

– Todos já sabem que o sítio será arrematado por seu vizinho, o Sr. Henrique, ele é o fazendeiro mais rico da região,  já está todo feliz, está com ares de grandeza, diz para todos daqui de Santa Rosa que o sítio Rio Vermelho é o seu sonho, e ninguém vai tirá-lo da sua mão. É um cidadão arrogante e muito maldoso, há tempos que ele perturba o Isaías para comparar suas terras, e até agora não conseguiu, mas eu acho que hoje não escapa, ele arremata o leilão, não tem ninguém por aqui para competir com ele, a família do Isaías está sofrendo muito, sabe que se o Henrique vencer o leilão vai ter que sair de lá o mais rápido possível. Ele já está falando que a hora em que ele colocar a mão na escritura que será entregue para o vencedor, após o leilão, diz que vai desmanchar a casa e transformar tudo em pasto.

– Eu vou assistir esse leilão e depois eu vou pra casa do Isaías, e quero pedir um favor para o Sr., eu preciso de um carro para ir ao sítio, será que você pode me arranjar um? Eu fico esperando em frente o fórum.

– Pode ficar tranqüilo, depois do leilão o carro estará à sua espera. Uma pessoa tão estimada por meu amigo Isaías, também merece meu respeito e admiração. Pode contar comigo para o que precisar.

E nesse momento passa um carro vermelho bem devagar e o Carlos fala com Heleno essas palavras:

– Você está vendo esse carrão de luxo que passou aqui na nossa frente? Ele é do seu Henrique, lá vai ele para o leilão que ele tanto esperava.

– Eu vou descer em frente o fórum, quero conhecer esse homem.

Heleno pega a mala, desce a rua e fica em frente o salão. Seu Henrique desce do carro, passa em frente Heleno, nariz de pé, nem enxerga o moço, grande em sua prepotência e soberba; entra no fórum, senta no primeiro banco. Heleno espera todos entrarem e depois ele entra e senta no último banco, bem próximo da porta de saída.

Tudo está preparado e o leilão tem início. Lá na tribuna está a corte mais graduada da região. O juiz, o promotor e vários gerentes bancários da região de Santa Rosa. O juiz inicia o leilão com essas palavras:

– É preciso que nesse evento haja silêncio absoluto, nós vamos dar início ao leilão do sítio Rio Vermelho, uma propriedade com quarenta e seis alqueires de terra que até o momento ainda pertence ao senhor Isaías Monteiro, mas no final desse leilão passará a ser do cidadão que der a maior oferta.         Ao ouvir o pronunciamento do Juiz, Seu Henrique Godói Ribeiro dá um sorriso de felicidade, vaidoso lança olhares por toda parte do salão, já expondo seu trunfo, o gosto daquela tão concreta vitória; o salão que está repleto de fazendeiros, sitiantes e as pessoas da cidade que eram meros espectadores que ali estavam para ver o desfecho do leilão tão comentado pelo povo de Santa Rosa. Lá na porta ao lado da sua mala está o moço do sertão com um semblante triste, cabisbaixo, jamais imaginaria que iria se deparar com algo tão chocante na sua viagem de volta pra sua casa. Prestava atenção em toda e qualquer movimentação, mas ao mesmo tempo, estava absorto em seus pensamentos, desejos de estar em outro lugar, vivendo outra cena, mais agradável do que esta.

E o Juiz continua o seu discurso:

– Esse sítio que vai ser leiloado hoje tem quarenta e seis alqueires de terra e é uma das propriedades mais valorizadas e cobiçadas aqui dessa região, nós vamos iniciar o leilão a cem mil por alqueire, somando assim um total de quatro milhões e seiscentos mil por essa propriedade.

Todos em silêncio ao ouvir as palavras do Juiz. Dezoito de setembro, inicia-se então em Santa Rosa o leilão do sítio Rio Vermelho. O juiz bate o martelo e da à saída.

– Cem mil por alqueire, quem dá mais?

– Dou cento e dez. – Responde Seu Henrique.

– Dou cento e vinte. – Grita outro fazendeiro.

– Dou cento e trinta. – Grita um terceiro.

– Cento e trinta por alqueire, quem dá mais? – Pronuncia o Juiz.

– Dou cento e cinqüenta para encerrar. – Diz novamente Henrique.

O Juiz volta a perguntar:

– Cento e cinqüenta é a atual oferta. Alguém oferece mais?

O silêncio preenche o fórum por alguns minutos.

– Eu pago cento e setenta. – Responde um quarto homem.

Por essa Seu Henrique não esperava, fica irado e resolve abrir a mala.

– Eu oferto duzentos mil por alqueire. – Esbraveja Henrique.

O Fórum fica em silêncio. Lá atrás está Heleno, só olhando o andar da carruagem. E o Juiz continua:

– Duzentos mil pela última oferta, alguém dá mais?

Vários sitiantes e muitos fazendeiros dão mostras de que vão retirar-se do salão.

– Se ninguém der mais na terceira batida do martelo o sítio será de Seu Henrique.

– Dou-lhe uma. – E bate o martelo na mesa.

– Dou-lhe duas. – Sobe o braço e bate pela segunda vez na mesa.

Espera alguns minutos e novamente:

– Duzentos mil por alqueire, alguém dá mais?

Heleno está na última cadeira com os braços cruzados. O Juiz ergue o martelo novamente e anuncia o desfecho:

– Dou-lhe trê…

– Um momento Senhor Juiz. – Interrompe Heleno, agora de pé.

Ninguém esperava que o leilão chegasse a tanto e todos já davam como certo que aquela oferta de duzentos mil seria o fim do evento e que o Seu Henrique já era o dono do sítio. Heleno está em pé, todos viram para trás e sob o olhar de toda aquela gente Heleno diz essas palavras:

– Eu gostaria de falar algumas palavras, eu posso ir adiante e usar o microfone?

– Você tem a minha permissão.

Aquele moço singelo, de poucas palavras, mas de grande sabedoria, alguém com uma história de vida que poucos teriam conseguido superar, pega sua mala e caminha pelo imenso corredor do fórum sob o olhar espantado e desprezível de todas aquelas pessoas que lotam aquele recinto, muitos balançam a cabeça, outros sorriem de um jeito disfarçado, Heleno percebe que está sendo motivo de chacota, mas caminha pelo corredor de cabeça baixa, finge nada perceber e continua a caminhar em passos lentos e firmes, como se estivesse definindo o enredo final de uma bela narrativa de ficção, recolhido a uma esperança que guarda no peito há vários e vários verões; para em frente a corte mais graduada da região de Santa Rosa. Juiz, promotor, banqueiros e vários gerentes bancários da região, oficial de justiça e outras “celebridades locais”, todos, sem exceção, estavam com o olhar fixo em Heleno com um jeito desprezível. Nunca ali naquela cidade que já era acostumada a promover leilões tinha acontecido aquilo, um evento ser interrompido daquela maneira; muito menos ainda por um pobre caipira, que provavelmente não teria onde cair morto. O fórum está mergulhado num absoluto silêncio, coberto por todos os lados de olhares curiosos, expressões de ironia, sarro e até de dúvida.

Heleno coloca a sua mala no chão e faz uma pergunta:

– Eu posso participar desse leilão?

– O leilão é democrático, é um direito de todos. O senhor tem esse direito, porque ele ainda não foi concluído. Embora já esteja a um passo grande de ser arrematado. Mas, como lhe disse, se isso ainda não ocorreu, tem todo direito de participar ativa ou passivamente.

– Agradecido, mas antes de tudo eu gostaria muito de fazer um pedido. Que vossa excelência me conceda alguns minutos para fazer um pronunciamento, minhas palavras serão breves, eu asseguro.

O recinto está em silêncio, diante daquele impasse inusitado que pegou todos de surpresa.

O Juiz então, diante da súplica do rapaz, e um tanto curioso por ouvir o que aquele simples moço, desconhecido, um coitado provavelmente, teria a dizer sobre o desfecho do episódio da venda do sítio, conclui por fim:

– O senhor tem toda liberdade de fazer o seu pronunciamento.

Heleno então dá início no seu discurso.

FINAL

– Senhor Juiz, senhor promotor, senhores bancários, banqueiros e cidadãos de Santa Rosa que estão aqui hoje como jurados desse evento e todos os demais presentes que abarrotam esse recinto. Peço que me ouçam com atenção e façam um julgamento sobre esse leilão que para alguns é motivo de alegria, de felicidade, de júbilo, mas para alguém é um motivo de tristeza, de desespero e angústia. Sou um peregrino aqui, essa é uma terra estranha para mim, estive aqui uma única vez e foi de passagem, e já se passaram mais de três longos anos, mas eu quero dizer para todos os presentes que não sou leigo no assunto que vai ser tratado aqui hoje. Acabei de chegar na cidade,  venho de muito longe e tenho uma caminhada longa pela frente,  estava outra vez de passagem mas quando vi esse movimento em frente esse salão eu nem sabia que aqui era o fórum dessa pequenina cidade, eu confesso que fiquei curioso ao ver tanta gente aglomerada na rua. Parei e perguntei a um cidadão o motivo de tão grande alvoroço e ele me passou todas as informações desse julgamento que hoje está sendo realizado, então eu me decidi que não poderia ir embora sem participar desse evento. Porque o cidadão que vai ser sangrado nesse leilão é um homem muito honrado e muito honesto, prova disso é que pelas informações que tive a cidade de Santa Rosa está enlutada, a tristeza está estampada na face de todas as pessoas. Sim meus senhores, a vítima desse leilão tão almejado, tão celebrado pelos fazendeiros da região e exclusivamente por seu vizinho de propriedade é motivo de alegria para esses que possuem centenas de alqueires de terra. O que eu vejo aqui hoje é a maldade sem limites, é uma atrocidade. Na vida a gente colhe aquilo que planta, quem planta amor deve colher amor, mas quem planta vento tem que colher tempestade. Esse cidadão que talvez seja sangrado nesse leilão só plantou amor durante a sua vida, tem uma família honrada e possui uma única propriedade, que vai ser hoje disputada pelos poderosos da região. Sim meus amigos, pelos latifundiários, os homens de uma ganância sem limites que quanto mais tem, mais aumentam sua ambição. Julgue senhor Juiz, julgue senhores jurados. Se houvesse amor no coração dos homens, isso não aconteceria de forma alguma. Dizem que a união faz a força e faz nascer o amor nos nossos corações, e o amor nos liberta da ganância, do egoísmo, do orgulho. Se houvesse ao menos uma gota de amor nos corações desses latifundiários que possuem uma imensa riqueza, com certeza isso seria resolvido de uma outra forma. Julgue senhor Juiz, promotor, senhores banqueiros e jurados.

A comitiva mais graduada da região que está ali presente fica paralisada, estática. O povo que lota o recinto está perplexo, de queixo caído. Muitos enxugam as lágrimas que correm pelo rosto. Ninguém consegue entender como poderia ser aquilo, um moço tão simples que estava trajado como um homem do sertão, estar fazendo um discurso tão eloqüente, com tão sábias palavras diante de uma corte tão graduada e diante daquela multidão que lotava aquele fórum. E Heleno continua o seu discurso:

– Esse cidadão nada fez de errado para chegar ao estado em que chegou, a sua inadimplência não foi por sua própria culpa, tudo foi uma ironia do destino, o motivo de sua queda foi a seca que atinge a região de Santa Rosa e a doença da sua amada esposa que o deixou nessa situação embaraçada e ele não conseguiu honrar os seus compromissos. E se o sítio Rio Vermelho vier a sair das suas mãos, ele estará em situação de miséria, não tem como amparar a sua família. Julgue senhor Juiz, julgue senhores jurados.

O Juiz toma a palavra:

– Senhor Heleno, por suas sábias palavras em uma colocação quase perfeita eu vejo que és um moço muito bem letrado, com muita sabedoria, nós gostaríamos de saber de onde vens e qual é o seu vínculo com o senhor Isaias Monteiro Martins.

– Eu espero que vossa excelência perdoe a minha sinceridade, mas estás enganado com a minha pessoa, eu não sou um moço letrado como vossa excelência mencionou, as aparências muitas vezes são ilusórias e nos enganam. Perguntas-me de onde eu venho, venho do fundo do sertão, a minha caneta sempre foi a enxada, eu sou apenas um sertanejo, meus pais são camponeses. Vou dizer como eu vim parar aqui; saí da minha casa em busca de um sonho, andei quatro dias a cavalo, sofri um acidente muito grave e fiquei entre a vida e a morte, ali à cinqüenta metros da ponte do rio vermelho fui socorrido por uma moça que lavava roupa nas margens do rio, e fui amparado por sua família, ali fiquei por mais de meio ano até que a saúde foi restabelecida e nesse tempo eu fiquei sobre os cuidados de uma linda moça, a mesma que me salvou lá na beira do rio, e nasceu entre nós um grande amor, mas eu tinha que ir embora em busca dos meus sonhos e deixei para trás essa família maravilhosa que ficou a minha espera, e três anos se passaram e eu estou de volta pra me casar com essa moça que se chama Flávia. Ela é a filha do senhor Isaías Monteiro. Esse é o vínculo que eu tenho com esse homem, eu serei o futuro genro do senhor Isaías. Não tenho palavras para explicar tamanha gratidão que sinto por esse cidadão. No dia em que me despedi da sua casa para ir em busca dos meus sonhos eu lhe disse que se um dia eu pudesse pagar o bem que recebi da sua família, isso eu faria com todo o meu coração, então ele me respondeu que o mundo dá muitas voltas e que a gente nunca sabe o que pode nos acontecer no dia de amanhã. No dia que eu ouvi essas palavras eu era um moço muito pobre e o seu Isaías era um homem estabilizado. Hoje eu sou um moço rico e o seu Isaías vai perder a sua única propriedade, isso precisou apenas três anos e pouco para que a nossa situação se invertesse. Hoje é o sítio do senhor Isaías que está indo a leilão, amanhã poderá ser a fazenda de um de vós.

As pessoas trocavam olhares, espantadas, algumas pareciam não se importar, mas a grande maioria ficou tocada com as belas e sábias palavras do moço; talvez tenham mesmo se colocado no lugar daquele pobre senhor, que ganhara da vida tão triste destino. O fórum até então estava em silêncio, mas quando Heleno termina suas palavras, todos se levantam e o aplaudem em pé. O Juiz retoma a palavra:

– Seu Heleno, o mérito da questão que está sendo discutida hoje aqui nesse fórum não é a integridade do senhor Isaías, mas sim a sua inadimplência. Bancários em cima da penhora do sítio Rio Vermelho e a dívida não foi saldada, todos nós sabemos da integridade do Seu Isaías, mas para que ele salve o seu sítio a conta tem que ser paga. Infelizmente a honestidade e a bondade deste homem não quitam seu débito no banco, não podem ser colocadas na balança diante dessa situação; e digo mais, meu caro, a vida é assim mesmo, incoerente pensar que este homem, como você mesmo afirmou, que só semeou coisas boas tenha que colher tão amargo fruto; as pessoas não se lembram; elas pensam em si, em seu benefício; e estamos aqui hoje, apenas para cumprir determinadas regras, a lei que está no papel; então prossigamos de acordo com a mesma. O senhor nos disse que quer participar do leilão, você tem noção da fortuna que é esse sítio? Volto a repetir, são quarenta e seis alqueires de terra que já está ofertado a duzentos mil por alqueire. O senhor tem condição de cobrir essa oferta? Se não tiver, nós estamos penalizados com a situação do Isaías, mas nada podemos fazer.

O fórum agora silencia novamente, Heleno corre os olhos por toda parte e depois olha para banco que está sentado seu Henrique e faz a ele uma pergunta:

– A sua oferta é duzentos mil por alqueire não é?

O homem mais rico da região está de cabeça baixa, está envergonhado, o seu orgulho foi quebrado após o discurso de Heleno.

O Juiz retoma a palavra:

– Vamos terminar esse leilão. A última oferta é de duzentos mil, alguém dá mais?

Heleno quebra o silencio do fórum com essas palavras:

– Eu pago duzentos e trinta por alqueire.

O Juiz ergue o braço e bate o martelo.

– Dou-lhe uma, dou-lhe duas. – Dá uma pausa.

– Dou-lhe três! – Bate o martelo.

– O sítio é do senhor Heleno da Silva Martins!

O povo sacode o fórum com uma salva de palmas e com gritos de alegria. Seu Henrique deixa o fórum e é vaiado na saída pela multidão que aclama “Viva Heleno”.

O moço segue até a mesa onde está a corte que comandou o leilão, acerta os detalhes do pagamento, o fórum já está vazio. Heleno é o último a sair e lá fora tem uma surpresa, a multidão o aguarda, enquanto ele é carregado pelas ruas da cidade nos braços do povo, o seu Carlos, o Carlinhos arruma um grupo de uns trinta homens e segue rápido para o sítio com algumas caixas de rojões, e conta toda história para a família de Isaías, e todos seguem até o carreador e ficam na estrada a espera de Heleno.

Uma hora depois o carro em que está Heleno desce o morro e é visto por todos, quando faltam uns duzentos metros para chegar na entrada do sítio, os rojões estalam pelos ares, a cinqüenta metros o carro para. O moço desce e corre de braços abertos em direção da Flávia que também corre ao encontro de Heleno de braços abertos.

– Heleno, eu te esperei! Nunca perdi as esperanças!

Os dois se encontram, se abraçam e o que se vê são lagrimas, beijos e carícias. Depois, o moço abraça as duas irmãs da Flávia e a seguir abraça dona Débora, e ela chora em seu ombro, e por último, que abraço emocionante entre ele e o senhor Isaías. Uma atmosfera de alegria, satisfação, de amor toma conta de todos e os rojões pipocam pelos ares.

Uma hora depois já está quase escurecendo e logo depois de uma longa conversa, todos vão para cama; no outro dia bem cedo todos estão na cozinha, Heleno chega, e diz:

– Flávia, eu quero ver o meu amigão, eu já não agüento mais a vontade de desfilar em seu lombo novamente.

Todos sorriem e Flávia responde:

– Ah sim, vamos lá ao pasto.

Os dois seguem de mãos dadas e lá está o Lustroso, na sombra de uma paineira.

– Oi meu amigão, eu não falei que voltava? Agora eu nunca mais vou te abandonar, eu quero dar uma volta com você meu amigo.

Heleno olha para Flávia e diz:

– Vamos?

– Mas ele não está arriado.

– O que importa isso?

Pega a moça e coloca em cima do cavalo e monta em sua garupa.

– Vamos minha amazona, vamos matar as saudades.

E os dois saem a galopar por todo o sítio.

Duas horas depois, todos estão na sala. Heleno pega a sua mala, tira dela a escritura e entrega para o sogro, que já tem uma expressão clara de satisfação:

– Heleno, nessa escritura constam todos os quarenta e seis alqueires de terra, eu irei dividi-los em duas partes. Pra cima da ponte tem vinte e seis alqueires, e pra baixo os outros vinte. Já estou ficando velho, não preciso de muita coisa para viver. Os vinte alqueires para baixo da ponte são para você e Flávia começarem a vida. Ali já tem uma lavoura de café formada, aqueles vinte alqueires são seus, Heleno.

– Nossa senhor Isaías, eu não esperava por isso, agora então só falta eu ir buscar minha família no sertão e depois acertar os detalhes do casamento. Mas para trazer a família eu preciso de quatro cavalos, a estrada que me leva até lá só passa um cavalo, é um carreador no meio da mata, eu preciso ir com a Flávia, com a Kátia e com a Karla para trazer minha turma na garupa, e depois eles terão de ficar aqui até eu construir duas casas.

– Pode levar minhas filhas e voltar com sua família, e pode ficar aqui em casa o tempo que for preciso.

Dois dias depois quatro cavalos arriados rumo ao sertão, quatro dias depois bem de tardezinha o sol já está se pondo, o dia começa a turvar e lá na porteira a cem metros da casa estão os quatro cavalos. Todos descem. Heleno abre a porteira e os quatro caminham pelo carreador, quando faltam quarenta metros pra chegar, Heleno da um grito bem alto, aquele grito que estava engasgado a muito tempo, machucando seu peito:

– Meu pai, minha mãe, eu estou de volta, estou de novo aqui no sertão!

A porta se abre e o casal vê o filho que está parado ao lado dos cavalos.

– É meu pai, eu voltei.

– Meu filho! Você voltou, meu Deus que saudade!!! – diz a mãe entre soluços

O moço corre ao encontro do pai e da mãe, os três se abraçam, choro e mais choro. Que emoção, que cena marcante que as três irmãs presenciavam. A emoção foi generalizada, só lágrimas de alegria.

Seis dias depois todos lá na casa do senhor Isaías.

Quatro meses se passaram, lá estão duas casas construídas pra baixo da ponte. Uma, bem perto do rio e a outra, pra cima, a uns cem metros. O casamento então é marcado, a festa foi no sítio e todo o povo é convidado por Heleno e Isaías. Santa Rosa ficou vazia por um dia, todos lá no sítio Rio Vermelho participando da festa, foi o casamento mais lindo que já teve naquela região de Santa Rosa.

Duas semanas depois do casamento Flávia e Heleno estão no terreiro e o senhor Elias passa na estrada rumo ao rio com um feixe de vara nos ombros. Heleno feliz, diz essas palavras:

– É Flávia, olhe, lá vai o meu pai com um monte de varas em direção ao rio. Como valeu a pena todo o meu sofrimento, fiquei distante deles por mais de três anos, fiquei longe de você, só Deus sabe o quanto eu sofri, mas valeu a pena. Valeu a pena cada lagrima derramada, cada gota de suor que escorreu em meu corpo… as noites em claro, sonhando acordado em como queria estar com a minha família, com você! E a saudade? Ahn, desta nem queira saber; rasga o peito da gente, como uma  tesoura dilacerando um tecido velho. Mas a esperança de dar aos meus velhos um resto de vida mais digno, mais humano, mais feliz, me movia a cada manhã, quando eu abria os meus olhos, logo cedo e já cansados, e então essa mesma esperança me dava forças, me fazia guerreiro, e eu passava o resto de meu dia agarrado a ela; a sua lembrança também me fazia seguir em frente, quando fechava meus olhos à noite, seu rosto, sua doce voz não me deixavam desfalecer; e eu só queria que o dia chegasse logo, pra que o tempo passasse mais rápido, e eu pudesse estar novamente em seus braços. Isso tudo me trouxe de volta, e com minha meta cumprida, porém, quem mais me ajudou, quem tornou tudo isso capaz de se concretizar, foi Ele, o meu Deus, que mesmo eu não tendo nenhum merecimento, sempre me estendeu a sua mão, e me deu a vitória.  Hoje eu vejo a felicidade do meu pai morando na beira do rio, o seu sonho foi realizado, nós estamos aqui no nosso sítio que é o nosso cantinho de amor e eu vejo o meu velho pescando nas águas do Rio Vermelho.

Dizendo essas palavras, os dois se abraçam e se beijam, e depois seguem abraçados lá onde está seu Elias.

– E daí meu pai, já pegou muito peixe?

– Já sim meu filho. Nossa, que emoção que é pescar nesse rio meu filho.

– É meu pai, essas águas aqui são as águas do Rio Vermelho.

 

Que Deus abençoe a todos, e até a próxima, se Deus assim nos permitir!

Jair Garcia Martins

 

 

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161 Comentários para “Nas Águas do Rio Vermelho – FINAL”

  1. Kátia Flávia

    Fantástica história, o melhor video de todos os tempos. O que será que Heleno irá falar?

  2. Takeshi

    Simplesmente um exemplo de superação a cada linha. O video ficou incrível. Não vejo a hora dele discursar e abrir a mala.

  3. Quenia

    Arrepiante, o video retratou perfeitamente a história, parabens.

  4. Willians

    Será que tem dinheiro na mala rsss

  5. Eribert Matunaga

    Não consigo entender como podes ter uma imaginação além do normal. O video é simplesmente o mais top de todos

  6. Eliana

    A emoção total como sempre fica no final, adorei esse video, e estou curiosa pra saber o que tem na mala

  7. Roberto Freire

    Sem palavras, apenas imaginando o que vem depois… esse video é sensacional.. um verdadeiro filme de cinema

  8. Terence

    Imagino um romancista como você tendo suas obras em formato de novela. Aliás, esse vídeo é uma verdadeira novela. parabéns novamente

  9. yuri

    Grande obra com grande video e um suspense maravilhoso pra gente esperar

  10. Ulisses

    Sem comentários… aliás,, sem folego aqui..

  11. Ilma

    Acompanhando essa saga de camarote

  12. Osmar F.

    Gente, mas, o que é isso… mate logo nossa cuiriosidade…

  13. Paul Richard

    Bravíssimo até agora não me canso de ler. e o video tá de parabéns

  14. Arnaldo Ramos

    Nota 10

  15. Selma

    Misericórdia que história…

  16. Dimas Santos

    Heleno.. que nome diferente.. nome de herói..

  17. Francisco Carlos

    Jóia demais.. o que será que tem na mala rssss

  18. Geraldo Escalassara

    Amando esse romance mais do que todos..

  19. Hélio

    Não sei onde arruma tanta imaginação.. ou será essa uma história real jair?

  20. Jorge da Capadócia

    Jair,, não preciso de tecer elogios a sua pessoa, mas, esse video e essa história estão demais..

  21. Jeremias

    Que show. valeu a pena esperar

  22. Kátia Flávia

    Uma verdadeira saga

  23. Lelo

    Olha que o negócio está fervendo em Jair. o que será que tem na mala rsss. será apenas roupas velhas?

  24. Zeila

    Sem palavras aqui,, e olha que eu pensei que você realmente fosse tirar uma pedra de ouro daquela montanha rss

  25. Ciça

    uau.. que venha logo o desfecho desse discurso

  26. Jorge da capadócia

    Valeu a pena esperar. Que discurso foi esse.. e que final feliz. Adorei.

  27. Takeshi

    Essa história me marcou profundamente. Eu descreveria apenas com uma palavra; ÉPICO.

  28. Wilma Angelina Ribeiro

    Final maravilhoso!Amei.

  29. Zeila

    Amei amei amei e chorei

  30. Quenia

    Chorando demais aqui,,, não consigo escrever

  31. willians

    Misericórdia,,, que discurso.. que final

  32. Ester dos Santos

    O melhor texto de todos os tempos… de todo mundo..

  33. Roberto Freire

    O que que é isso amigo… deveria escrever filmes

  34. yuri

    Imprimi para levar para a faculdade… simplesmente sem palavras…

  35. ulisses

    Bravo!!!

  36. Ingrid

    Deixei para te parabenizar no final.. valeu a pena esperar… parabéns

  37. Omero

    Li tudo de uma vez agora… não consegui parar enquanto não vi o final.. valeu cada palavra.. emocionante, principalmente o discurso

  38. Paul Richard

    Muito lindo o discurso, valeu o texto inteiro.. se bem que o texto inteiro é valioso,, parabéns

  39. Alannis

    Primeira leitura de muitas outras que certamente apreciarei como essa magnífica história.

  40. SRS

    Meus mais sinceros parabéns ao autor que se denomina Jair.

  41. Dimas

    Fiquei arrepiado aqui do início ao fim do discurso, e feliz com o desfecho dessa maravilhosa saga

  42. Fernanda Morelato

    Amei do princípio ao fim, principalmente do video que emociona

  43. Geraldi

    Bem elaborado e bem redigido. Um verdadeiro best seller se publicado. Parabéns e que venham muitas outras histórias como essa..

  44. Hélio

    Que discurso maravilhoso…

  45. Juliana Santos

    Me emocionei com o final…

  46. Kelly Minogue

    Não poderia ter sido diferente.. simplesmente maravilhoso. Amei tudo inclusive o video que remete a história

  47. Luiz Renato

    Sem palavras, deveria ser trasformado em filme

  48. Xenia

    Amando muito aqui…

  49. Verônica

    Que discursso e que final hein.. acompanho os seus textos desde o primeiro, entretanto, esse foi o que marcou toda uma história. Meus mais sinceros parabéns Jair.

  50. Berenice Savalagio

    Jamais imaginei um final tão empolgante para essa novela que se arrastou durante esse período. Não posso deixar registrado de que compartilhei durante todos os capítulos com meus amigos do facebook e eles simplesmente amaram.

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