Duas Lágrimas no Altar – Parte 2 – por Jair Padeiro

Um silêncio profundo. Chega o momento de unir o casal:

– Ricardo Franco da Rocha, o senhor aceita a senhorita Alexandra Simões como sua legítima esposa?

– Sim. – responde o noivo.

– Senhorita Alexandra Simões, aceita o senhor Ricardo como o seu legítimo esposo?

Alexandra corre o olhar por toda a igreja e crava os olhos em Renatinho que está com as lágrimas correndo pelo rosto, e ao ver ali o seu amado, o homem que ela ama, ela se emociona e todos os momentos felizes vêm à tona em fração de segundos, e uma nostalgia invade sua alma e ela derrama duas lágrimas no altar. Nesse momento, ela tem que decidir, sim ou não. Olha para o seu pai, olha para sua mãe, que parecia estar muito triste com essa união, pois ela também sonhava que sua filha se casaria com Renato, pois sente na alma que a felicidade da filha está em jogo por causa desse casamento forçado pelo pai. A igreja está em silêncio, só aguardando o “sim” da noiva, que deixa todos apreensivos. E mais uma vez de um jeito bem disfarçado para ninguém perceber, ela olha para Renatinho, que está com o olhar cravado nela, e ela tem que decidir, então ela se decide:

– Sim, eu aceito o Ricardo como o meu legítimo esposo.

E novamente olha para Renato e derrama duas lágrimas no altar. Tudo consumado e após a troca das alianças o reverendo dá as suas últimas palavras para finalizar a cerimônia:

– Eu vos declaro marido e mulher. Vocês viverão juntos, na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, e assim até que seja a vontade de Deus em vos separar.

Iniciam-se então os parabéns, os abraços e a noiva banhada em prantos vai enxugando as lágrimas entre os convidados. Para as pessoas aquelas lágrimas que ela derramava ao sair pelo corredor da igreja eram lágrimas de felicidade. Mas só Alexandra sabia a dor que ela sentia naquele momento.

Finalmente a igreja vai ficando vazia, na medida em que os noivos caminham pelo corredor em direção à porta de saída, Renatinho sai pela lateral da igreja, pelo mesmo lugar em que ele entrou, seu coração está em pedaços. Que amargura aquele moço tão apaixonado sente na alma. A medida em que ele caminha rumo a porta de saída, seu lenço vai ficando todo molhado pelas lágrimas que derrama. Agora tudo está definitivamente acabado. Seus sonhos morreram nos pés daquele altar. Alexandra acabara de dizer o sim por toda vida e coloca a aliança na mão de outro homem. Todos os laços de esperança morreram ali naquele momento. Tudo se acabou após aquele juramento de amor, de se unirem até que a morte os separe.

Renato fica nas escadarias da catedral só esperando a noiva chegar. Ele quer dar a ela o seu último adeus, um grande amor não pode morrer assim, de maneira brusca, sem ter uma despedida apropriada. E para este último adeus, Renato trouxe para a noiva um ramalhete de flores, e entre as flores um bilhete com os seguintes dizeres:

– Alexandra, meu inesquecível amor, o tempo passou, mas não levou embora o amor que eu sinto por ti, eu ainda te amo, esse será o meu último adeus, o nosso último adeus. Eu lhe desejo toda a felicidade deste mundo, do fundo do meu coração.

O céu, que estava lúgubre, nesse momento se fecha, trovões, relâmpagos e um forte vendaval. Já não há quase ninguém por ali, os convidados seguiram rumo à fazenda do senhor Alexandre, para o jantar festivo. O senhor Alexandre e dona Olívia já estão em seu carro há quinze minutos esperando pelos noivos para seguirem juntos em comboio rumo à fazenda.

Renatinho está ali encostado na parede a cinco metros de distância do carro, só olhando a noiva se despedindo dos últimos convidados. Ricardo já está no interior do carro há alguns minutos, a noiva entra no carro com seu vestido molhado e o carro sai lentamente e passa bem perto de Renato, eles se olham pela última vez, e nessa troca de olhares suas almas conversam. Pela janela do carro a noiva estende sua mão em direção a Renato, em um triste gesto de despedida, e ele ao invés de segurar, deposita nas mãos da noiva o ramalhete de flores.

O carro segue, Alexandra olha para trás pela última vez, e enquanto a chuva aumentava, via o vulto de Renato desaparecer outra vez de sua vida, logo agora que acabara de reencontrá-lo.

E aquela face tão doce, tão dela conhecida, foi virando um vulto longínquo, acinzentado… um sonho que parecia esvair-se de suas mãos; e os estilhaços daquela segunda e definitiva despedida já esmigalhavam a sua pobre alma; e então, como uma criança que perde o brinquedo preferido, ela engole os soluços, suspira, inspira, sente o gosto salgado de uma lágrima teimosa, que insiste em salgar seus lábios entreabertos.

Oito horas da noite, e chuva não cessa. Renato chega em sua casa, abre o portão e entra no quintal. Sua mãe, que já estava à sua espera, mostra-se preocupada:

– Meu filho, você está todo molhado!

– Sim, mãe, por essa chuva que não para e pelas lágrimas que eu derramei por ela. Minha mãe, não fique brava com a chuva, é o céu que está chorando por mim e por ela. Meu pai, minha mãe, ela chorou no altar e chorou na hora em que lhe entreguei flores.

Horas depois do desabafo e do consolo, todos estão dormindo.

O dia amanhece e, como de costume, seu Augusto se levanta e vai na varanda lá do fundo ouvir musica sertaneja, dessa vez bem baixinho, em respeito ao filho, que dorme a base de sonífero, como um pedido de socorro de sua pobre alma, por uma noite de paz e tranquilidade, mesmo que forjada…trapaceada! Mas deitar sob o travesseiro naquelas condições, era pedir pra ficar envolto naquele luto, naquela angústia fatigante, e ficaria horas a fio, detalhando aquele pavoroso cenário de terror: seu doce amor…ah esse amor! esvaindo-se de suas mãos, como um cálice de vinho porto, em uma taça quebrada!

Nesse programa musical, nesse dia vai ser comunicado para os ouvintes algo diferente, o programa é interrompido por uma notícia bastante chocante e o narrador anuncia:

 

– Queridos ouvintes, nesse momento nós vamos interromper a programação musical para comunicar uma triste notícia. Ontem à noite houve um grave acidente envolvendo cinco carros na rodovia 119. Dois veículos da mesma família, do senhor Alexandre Simões, que vinham do casamento da sua filha rumo a sua fazenda para as comemorações festivas. A noite estava chuvosa e escura, segundo informações, um dos convidados perdeu o controle do carro e atingiu outro veículo, e com a baixa visibilidade houve o chamado efeito dominó. Uma tragédia. O noivo recém-casado, que estava no banco da frente do carro, morreu no local. Alexandra, a noiva, foi para a UTI, mas segundo informações segue estável. Já seu pai, o senhor Alexandre, está em estado grave. Dona Olívia teve ferimentos menos graves, está consciente e pede orações pelo marido e pela filha. Os outros veículos envolvidos não tiveram vítimas fatais, algumas lesões, mas nada muito grave. Assim que tivermos mais detalhes voltamos a informar, até lá, pedimos a todos que enviem orações e bons pensamentos para as famílias envolvidas.

Ao ouvir a notícia do acidente, Augusto desliga o rádio e entra rápido no quarto e chama o filho:

– Renato, você precisa ouvir isso, mas fique calmo.

Nesse momento, Roseli, que está coando o café, corre para o quarto e pergunta:

– O que aconteceu, que você veio desesperado lá da varanda, Augusto?

– Sente-se, você e o Renato. E ouçam com atenção o que eu acabei de ouvir no rádio.

Seu Augusto conta toda a história que ouviu.

– Meu Deus, meu pai, minha mãe, que tragédia, que coisa horrível, então o noivo foi a única vítima fatal?

– Sim, foi a única que morreu no local, mas a Alexandra está na UTI, no rádio disseram que ela está fora de risco. Dona Olívia está bem, e o seu Alexandre está tetraplégico, está sem memória até o momento, e parece-me que correndo sérios riscos de, se viver, ficar em estado vegetativo!

Dois meses depois do acidente, Alexandra está sob os cuidados da família, ela continua na UTI, não melhora, está com uma depressão profunda, está a poder de remédio. O médico manda chamar Dona Olívia em seu consultório e lhe dirige essas palavras:

– Dona Olívia, eu percebo uma coisa estranha com sua filha, ela está sofrendo muito, a sua depressão é um caso muito sério, mas a conclusão a que cheguei é que se trata de algo psicológico decorrente de um outro motivo, para estar assim tão depressiva não é só a causa do acidente, veja o que foi achado pela perícia no carro em que ela estava com o noivo.

Dizendo essas palavras, ele mostra para ela um ramalhete de flores, e em meio às flores, um bilhete com os dizeres que Renato escreveu, as flores já estavam secas, transformadas quase que em pó, mas as letras estavam bem legíveis. Dona Olívia, ao ler o bilhete e o nome do Renato assinado em baixo quase tem um infarto, e exclama:

– Meu Deus, não é possível, isso mais me parece um delírio, mas é real, o Renato esteve no casamento!

E o Doutor conclui:

– Então, Dona Olívia, nos diga quem é esse Renato, nós estamos achando que a depressão que está quase matando a sua filha é esse moço, nos explique essa história.

E Olívia explica ao médico e para a psicóloga toda a história em detalhes. E a psicóloga recomenda que tragam Renato até o hospital, para fazer uma visita, ficarão só os dois em uma sala, para ver qual será a reação de Alexandra.

Enquanto isso, lá na casa do senhor Augusto:

– Mãe, pai, eu estou com muita vontade de ir lá no hospital visitar a Alexandra.

– Não, meu filho, não faça isso, talvez dona Olívia não goste de sua presença no hospital. Aquele hospital é particular, rigoroso e lá só entram pessoas credenciadas, você, meu filho não consegue nem entrar lá sem ser acompanhado por alguém da família.

E para a surpresa de Renato, em uma quarta-feira, dona Olívia encosta o carro em frente à sua casa, abre o portão, chega perto da varanda e chama:

– Dona Roseli, seu Augusto, eu estou aqui.

A porta se abre, Roseli vem atender, quase não crê no que ela está vendo em seu quintal, e diz essas palavras:

– Nossa, que surpresa agradável, a senhora dona Olívia, há quanto tempo hein?

– Sim, já faz tempo que eu não entro mais nesse seu quintal, que vontade que tinha de vir aqui.

– E nós estávamos com muitas saudades da senhora, da sua família.

As duas entram e Roseli chama o seu Augusto e o Renato que estavam lá no fundo da chácara. O moço aparece ao lado do pai e leva um susto.

– Meu Deus, quem está aqui, que felicidades, Dona Olívia, em rever a senhora, nós sentimentos pelo acidente, e a Alexandra e o seu Alexandre, como eles estão? – Pergunta Renato.

– O Alexandre praticamente se acabou, está tetraplégico e perdeu a memória, está em estado vegetativo, e é sobre a Alexandra que eu vim falar, e foi a pedido do doutor e de uma psicóloga. Renato, a Alexandra está na UTI desde que aconteceu o acidente, já faz dois meses, ela não se machucou muito, mas está inerte em uma cama, não conversa, não se alimenta direito, está em uma depressão profunda e o médico disse que ela pode até vir a falecer se não acharmos a causa dessa depressão. Me perguntou sobre todo o seu passado, se ela teve algum problema. Ele acha que a causa dessa depressão já não faz parte daquele acidente, o motivo deve ser outro e eu contei pra ele sobre vocês, e ele acha que pode ser esse o motivo, e o doutor quer que você vá ao hospital fazer algumas visitas para ela. Ele quer notar qual será a reação dela, se o motivo for você, Renato, com certeza ela vai ficar boa, você vai comigo lá amanhã, Renato?

Dona Roseli toma a palavra:

– Que felicidade para o meu filho, ele ir visitar a sua filha, já faz dias que ele só fala nisso.

Renato se levanta da cadeira e para em frente de Dona Olívia, e diz essas palavras:

– Olívia, se levante que eu quero dar um abraço na senhora.

A mulher se levanta e os dois se abraçam e as lágrimas descem na face de ambos. Depois de alguns minutos, vem o café e um pedaço de pão caseiro. Dona Olívia olha na cozinha e diz essas palavras:

– Que saudades que eu tenho de um fogão à lenha como esse da senhora.

            Ela olha pela janela e conclui:

            – Olha lá, seu Augusto, Dona Roseli, o nosso velho casarão abandonado, o mato já está perto da varanda. Quantas saudades eu tenho desse casarão, olha a varanda em sua volta. E Renato, era ali naquela varanda que você e a minha filha passavam horas brincando. Como eu era feliz vivendo ali, às vezes a gente é feliz e não sabe. Sinceramente, a nobreza não me fez bem, eu não vi a felicidade na vida nobre, seu Augusto, Dona Roseli, porque eu perdi o marido simples que eu tinha, o Alexandre ficou orgulhoso depois que ficou rico.

            Duas horas depois.

            – Então está combinado, amanhã às quinze horas eu te pego aqui, Renatinho, para você ir lá no hospital visitar a Alexandra.

            E na quinta-feira, às quatro horas lá está Renato no Hospital. Ele é levado até o consultório do Doutor Paulo.

            – Então você é o Renato?

            – Sim, doutor, eu mesmo.

            – Sente-se, precisamos conversar. Moço, o estado de Alexandra é muito grave, eu creio que a medicina sozinha não poderá resolver o caso dela, eu acho que você pode ajudar. É o que eu e a psicóloga, doutora Camila, deduzimos.

            Dizendo essas palavras, ele pega as flores já secas esfareladas e o bilhete em cima da mesa, e diz para Renato:

            – Leia esse bilhete.

            Ao ler o bilhete, o moço fica pasmo.

 

FIM DA 2ª PARTE

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36 Comentários para “Duas Lágrimas no Altar – Parte 2 – por Jair Padeiro”

  1. Takeshi

    Meu Deus… que drama é esse Jair… Estou pasmo…E agora, será que ela vai se recuperar ou teremos mais uma surpresa inesperada como essa… Estou sem folego.

  2. Quenia

    Estou simplesmente chocada…

  3. Walter Freire

    Nossa que tragédia..Não vejo a hora de ler o resto.

  4. Ederaldo

    Isso é um verdadeiro filme

  5. Emerson Petriv

    Estou simplesmente de boca aberta, curioso pra terceira parte que com certeza vai render muito mais..

  6. Renato Ikeda

    Colônia japonesa completamente empolgada, não se fala em outra coisa nessa manhã..

  7. Roberto Fukuda

    Terceira parte Já…

  8. Terence

    Deveria procurar um cineasta jair. pra transformar esses belos contos em película.

  9. Tereza Nishimori

    Já tenho uma certa idade e sempre apreciei um bom livro. Entretanto, histórias contadas e escritas com essa riqueza de detalhes nunca vi. Estou impressionada, além de muito emocionada.. Muito obrigado por nos presentear com seus romances jair.

  10. Yuri

    Meu Deus, que drama,, nunca imaginei isso…

  11. Ulisses

    Fantástico e inesperado o desenrolar desse romance. Prende totalmente a atenção da gente.

  12. Ian Salgado

    Fabuloso até o momento, parabéns ao autor.

  13. Ingrid Savalagio

    Grande artista o autor, surpreende a cada conto. Esse me deixou de queixo caído até o momento. será que teremos mais surpresas?

  14. Osvaldo Taque

    Sem palavras.. Poste logo a continuação.

  15. Paulo Vela

    Terceira parte em 3..2..1…

  16. Pedro Antônio

    Meus parabéns pelo enredo e pela riqueza de detalhes. Isso remete a uma imersão profunda na história. Aguardo o desfecho do romance que seguramente renderia um belo filme.

  17. Allanis Morisete

    Adorando até o momento. Até cheguei a pensar que pudesse acontecer o acidente. Acredita nisso jair?

  18. Silvia Ramos de Oliveira

    Grande e emocionante romance, digno de ser publicado na grande mídia. Estou muito empolgada com o desenrolar desse maravilhoso conto. E como muitos comentários que li aqui, realmente tenho que concordar plenamente que a riqueza de detalhes causa uma emoção muito intensa. Postem logo a parte final.

  19. Dimas

    Que surpresa o cara morrer hein.

  20. Zuka

    Show de imaginação hein Jair. Já li vários romances, mas, os seus tem uma marca registrada que é a explosão das emoções .

  21. Gisele Araújo

    Jóia rara de romance.. E sabe como prender a atenção do leitor, isso torna a leitura extremamente agradável e não cansativa. Surpreendente o enredo. aguardo o resto.

  22. Francisco Lima

    Aguardando o final.. Muito bom..

  23. Henrique

    Espetáculo de história de amor..

  24. Hélio Sparta

    Tenho que saudar o Jair. Parabéns pelas grandiosas obras literárias que produz amigo. Essa e a anterior são sem dúvida as mais profundas….

  25. Lorraine Vekanandre

    Posta logo o resto.. please…

  26. Giuliano

    Brilhante o enredo, estou gostando muito..

  27. Keila

    Fantastica história. aguardando o final.

  28. leila Lopes

    Simplesmente maravilhosa história.. E se o noivo não tivesse morrido hein…

  29. Ciça

    Jair, você tem o dom de escrever lindas histórias e também tem o dom de deixar a gente curiosa kkkk. Posta logo o final ….

  30. Zuka

    Chorei com Ricardo na igreja, derramei duas lágrimas no altar com a noiva… Simplesmente emocionada aqui…Sem palavras…

  31. Xuxa Alfredo

    Nunca chorei lendo um conto.. nesse eu chorei..

  32. Carlos Frata

    Parbéns ao autor..

  33. Vanda Cobo

    Jair, você é professor de literatura, um mestre da dramaturgia, um expert em emocionar os leitores.. Parabéns..

  34. Benito

    Tenho que confessar, duas lágrimas escorreram do meus olhos…

  35. Nilcéia Lopes de Souza

    Li duas vezes, chorei três.. Aguardo.

  36. Margot Ferreira

    Tenho a nítida impressão de que Uraí tem um dos escritores mais inspirados de todos os tempos.. Tem a arte nas veias Jair. Aguardo ansiosa o término desse romance arrebatador e emocionante. Um grande abraço.

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